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    Canção Sem Nome
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Canção Sem Nome

    A fábula bruta

    por Bruno Carmelo

    Este drama peruano se move pela constatação de crises, tanto do país quanto dos indivíduos. A tela se abre com uma sucessão silenciosa de capas de jornal e outros materiais atestando o colapso econômico dos anos 1980, a perseguição policial nas ruas, os casos de corrupção. Quando se enxerga em seguida o rosto triste de Georgina (Pamela Mendoza) sentada à beira da rua, vendendo batatas a clientes que nunca aparecem, percebe-se que esta mulher grávida constitui um caso exemplar empregado pela diretora Melina León para representar o caos anunciado. Por isso, a jornada da protagonista não pode ser apenas dura, ela precisa ser trágica: quando descobre uma clínica que aceita realizar o parto gratuitamente, Georgina busca os serviços do local, apenas para ter o bebê sequestrado logo após o nascimento.

     

    A apresentação da protagonista gera fácil identificação: como não torcer pela mulher pobre, grávida, enganada por uma gangue, com a filha roubada de seus braços? León faz questão de tornar o calvário da jovem ainda mais grave, ao descrever a gangue como um grupo de pessoas maquiavélicas, junto de policiais indiferentes, juízes coniventes, mafiosos ameaçadores etc. Mesmo a cena em que Georgina sobre vários andares de escada enquanto tem contrações reforça a impressão do calvário. O drama relata a trajetória de uma mater dolorosa do século XX, acreditando que, quanto maior for a sua dor e quanto mais perversos forem os seus adversários, mais potente será a denúncia social. Ora, ao retirar nuances no antagonismo “Georgina versus o mundo”, o caráter reflexivo se dilui: Canção Sem Nome denuncia a maldade humana e a perda de valores, ou seja, problemas de ordem moral ao invés de uma questão política específica.


     


    Por esta razão, não se estuda causas nem se propõe alternativas: o roteiro se posiciona apenas na constatação alarmante dos fatos. A única pessoa disposta a ajudar Georgina é o jornalista Pedro (Tommy Párraga), profissional sem grande prestígio no veículo onde trabalha, e marginalizado por ser gay. A narrativa busca a bandeira das mulheres miseráveis e dos pequenos trabalhadores homossexuais para representar a batalha quixotesca das minorias contra o Estado. O protagonismo se divide a partir deste momento, hesitando entre abraçar a história de uma vítima ou a história de um herói – de qualquer modo, duas figuras arquetípicas, sem traços particulares nem aprofundamento psicológico. Georgina chora; Pedro se cala e pesquisa. Este é essencialmente um filme de ação, no sentido de exteriorizar sentimentos e se concentrar na sucessão de fatos. Mesmo o aspecto de suspense policial, na busca pela gangue e pelo bebê, revela-se frustrante: ora a narrativa ameaça tornar esta investigação emocionante e perigosa, ora ela afasta o olhar do público da busca em si.

     

    A mesma indefinição toma conta da estética, oscilando entre a imersão e o distanciamento, entre o realismo social e um aspecto poético, beirando o fantástico. O formato da tela, próximo do quadrado, com as bordas desfocadas e um preto e branco contrastado, se aproxima de uma configuração estetizante da imagem, com o acréscimo de composições fabulares (a casinha abandonada na colina íngreme, tomada pela neblina) e aspectos simbólicos como o chão de círculos por onde a protagonista caminha com frequência. Por outro lado, o aspecto silencioso da imagem, com pouca trilha e ruídos, as composições brutas dos atores não-profissionais e a atenção ao folclore aproximam o resultado do naturalismo documental. O roteiro ora se abre à impressão de acaso (o encontro entre Pedro e o namorado, a descoberta da falsa clínica no momento em que Georgina está prestes a parir), ora reforça os laços rígidos de um destino traçado (a montagem paralela apresenta a vida de Georgina e de Pedro muito antes de os dois se conhecerem, a canção do título irrompe como desfecho prometido desde o princípio).


     


    Em meio a tantas mudanças de gênero, tom e linguagem, Canção Sem Nome resulta numa experiência surpreendente, ainda que pouco coesa. O espectador conhecerá pouco sobre Georgina, Pedro ou mesmo Léo, além de ignorar fatos essenciais sobre a repercussão do jornalismo, o funcionamento da gangue e as ameaças que pairam sobre os protagonistas. No entanto, terá a impressão de uma injustiça retratada de modo ao mesmo tempo bruto e fabular. A bela cena final, inclusive, remete ao término dos contos literários, em sua capacidade de não propor um desfecho a todos os elementos em aberto, mas ao menos apontar possibilidades e deixar reflexões em aberto. Depois de tantas descrições cruéis da violência dos homens, a conclusão se conforma com a pequeneza dos pobres diante do sistema, e então se entristece, lamenta, e deixa seu grito de revolta preso na garganta.

     

    Filme visto no 29º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema, em agosto de 2019.

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