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    Destacamento Blood
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Destacamento Blood

    Memórias de guerra

    por Barbara Demerov
    ESTE TEXTO PODE CONTER SPOILERS DE DESTACAMENTO BLOOD.

    "Houve atrocidades dos dois lados". Sempre há dois lados para tudo, mas no caso da Guerra do Vietnã e outros grandes conflitos mundiais, o cinema norte-americano sempre preferiu olhar para apenas um dos lados, visando um legado histórico e de imponência que sequer pode ser idealizado por quem viveu do outro lado. Assim como em Infiltrado na Klan, o filme mais recente de Spike Lee é uma denúncia do que há de mais danoso nas raízes sociais e políticas norte-americanas. Ao mesmo tempo em que ele dá ênfase na visão de homens negros fadados à opressão a vida toda, também deixa bem delineado um histórico do país que ainda pesa muito nas atuais gerações, mas não de forma positiva.

    Em Destacamento Blood, o cineasta vai ainda mais além na abordagem direcionada ao preconceito racial, inserindo-o dentro da política falha que envolve a guerra - no caso mais certeiro, a Guerra do Vietnã. Lee expõe, de modo provocativo e nada cauteloso, os espinhos de sua nação desde os créditos iniciais. É preciso estômago para aguentar o que virá pela frente, por mais que esta seja uma história fictícia com segmentos reais. O filme mergulha profundamente nas entranhas de um sistema que corrompe homens e ideias, sem que ninguém triunfe de verdade no fim das contas.

    Mas, de início, Destacamento Blood não aparenta ser um drama de guerra. Pelo menos, não enquanto um grupo de veteranos de guerra norte-americanos se reúne no Vietnã para reaver o corpo de um amigo e a grande quantia de ouro que esconderam durante os anos de batalha. A missão parece ser simples e até mesmo "leve" diante da amizade explícita entre aqueles homens. É divertido acompanhar as conversas informais, mesmo quando Lee insere questões muito pontuais relacionadas à política atual dos EUA com um protagonista que votou em Trump.

    O CHOQUE DE ALGUMAS CENAS NUNCA VÊM SOMENTE DA FICÇÃO, POIS O CENÁRIO REAL SEMPRE ESTÁ PRESENTE

    A falsa impressão de que o passado ficou no passado permeia apenas um terço da narrativa. Porém, o estilo característico de Lee nunca se ausenta diante das inserções inesperadas de imagens (tanto em fotos quanto em vídeos) de figuras reais que marcaram a guerra - dentro ou fora dela -, assim como das informações obtidas casualmente sobre o quarteto principal. Além disso, as mudanças de quadro quando o espectador vê um flashback, remetendo a um filme dentro do filme, salientam o ponto de vista ficcional da guerra, mesmo com o realismo apresentado sem filtro. Porém, o choque proveniente de situações ficcionais nunca vêm de forma isolada, pois o cenário real está sempre ali para nos lembrar que o passado se faz muito presente.



    Angela Davis e Martin Luther King misturam-se aos registros de jovens acadêmicos sendo atacados pela polícia e vietnamitas assassinados por soldados americanos. Tais interposições estão sempre lá, sendo cada vez mais incômodas à medida que a narrativa avança e a trama principal se aprofunda nos erros e na ganância do quarteto. Afinal, Lee quer que vejamos os erros desta política militar e imperialista da mesma maneira que constrói personagens complexos e ambíguos com bastante eficácia.

    O diretor sabe que nenhum personagem ali é digno de idealizações exageradas, deixando, assim, o heroísmo apenas para o lado do finado Norman (Chadwick Boseman) - o único personagem que conhecemos apenas devido às lembranças de Paul (Delroy Lindo), Melvin (Isiah Whitlock Jr.), Otis (Clarke Peters) e Eddie (Norm Lewis). É interessante observar, também, que todas as cenas em flashback são interpretadas pelo quarteto já em idade avançada, escolha essa que destaca ainda mais o enaltecimento da própria cultura de guerra do quarteto, tão enraizada e evidenciada em Norman. Lee exalta a figura quase que sagrada do personagem morto apenas para desmistificá-la, com base no que vemos de reflexo nos vietnamitas mais jovens que também querem obter o ouro.

    Estes momentos mais pungentes de Destacamento Blood são os mais marcantes e alcançam a mensagem que o diretor busca passar desde o princípio: é importante, se não essencial, considerar olhar a História por uma ótica que não seja a sua. Lee não quer salvar vietnamitas ou redimir norte-americanos; ele entende que é de uma importância coletiva compreender que questões tão estruturais na sociedade, tal como o racismo, estão envoltas a um poder econômico gigantesco que só visa o melhor àqueles que são privilegiados. Mas, quando o quarteto retorna ao Vietnã, existe uma curiosa analogia entre um desejo pessoal e um desejo imperialista dentro da busca pelo ouro.

    Em algumas passagens há pouco balanço entre o lado cômico e o dramático, pois, por vezes, eles não possuem tanto contraste e misturam-se em cenas que não necessitam de um ou do outro. Por conta de a narrativa encontrar um giro dramático tão sorrateiramente (e ter como aliada uma trilha-sonora com mais vigor que o necessário), Destacamento Blood pode até perder um pouco de seu tom mais crítico. Mas o lembrete de que esta é uma obra séria e atual vai e volta, se assemelhando a uma brisa suave. Talvez seja pelo fato de não ser uma constante revisita a um passado sanguinolento que o filme permaneça na mente por mais tempo que o esperado. Entre a explosão de minas esquecidas pelos EUA e o grito que vem logo após, Spike Lee dá atenção à memória que este barulho traz, como uma punição.
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    Comentários

    • Roberto S.
      Ei, a sinopse foi feita pelo google tradutor, sozinho? Veterinários? Um filme tão bom merecia um tratamento melhor por parte da equipe.
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