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    For Sama
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    For Sama

    Viver entre as bombas

    por Bruno Carmelo

    A premissa deste documentário provoca, por si só, um grande impacto emocional. A história da jovem cineasta que engravida e dá à luz em plena guerra civil na Síria, convivendo com bombas e perseguição política, consegue aliar o público e o privado, o nacional e o individual, a noção de vida (o bebê) e de morte (as bombas). A diretora Waad Al-Khateab adapta o filme ao formato do vídeo-diário, explicando para a filha Sama, no futuro, de que maneira resistiu aos ataques do ditador Bashar Al-Assad, até ser forçada a abandonar a amada cidade de Alepo.

     

    A sensibilização aos crimes cometidos no país é demonstrada principalmente através de imagens-choque, captadas no calor do momento, com telefones celulares. Cenas de cadáveres de bebês se sucedem a outras de familiares gritando a perda dos entes queridos e mais algumas de bombas explodindo ao lado do quarto onde dormem as crianças. Para cada instante de catástrofe, a montagem proporciona seu avesso, como a feliz descoberta da gravidez ou o pedido de casamento. Em parceria com o cineasta Edward Watts, Al-Khateab propõe uma gangorra de sentimentos na nobre intenção de demonstrar não apenas o instinto de sobrevivência do casal, mas também a vida cotidiana, a intimidade da cineasta e seu marido dentro de casa, o medo diário de um ataque, a explicação às crianças pequenas sobre as atrocidades da guerra.


     


    Deste modo, embora as imagens sanguinolentas se sobressaiam pela evidência de seu significado, são outros instantes, inesperados, que tornam For Sama um projeto tão especial. Os diretores captam a alegria de uma amiga quando recebe de presente um caqui – fruta que adora, mas não comia há anos devido à destruição das plantações. Durante o inverno, poucos segundos após uma bomba invadir o prédio onde vivem, dois homens se aquecem perto do objeto de alta temperatura. Em seguida, uma criança explica à colega, ambas muito pequenas, que sua casa foi “destruída por uma bomba de fragmentação”, demonstrando um conhecimento que deveria estar muito distante do universo infantil.

     

    A estética acompanha a riqueza narrativa: ao invés de apresentar fatos em ordem cronológica, o documentário efetua idas e vindas no tempo de modo a justapor núcleos de urgência com outros de reflexão quando, anos mais tarde, a diretora discorre sobre a evolução da guerra no país. Os constantes saltos entre passado e presente, com acenos ao futuro incerto, temperam a possível aparência de reportagem amadora por meio da montagem eficaz e de levantamentos pertinentes ao caso Sírio. “Tentar viver normalmente aqui é um ato de resistência”, afirma a diretora-narradora. Brincar com as crianças, fazer compras e caminhar pelas ruas, quando há dezenas de bombardeios diários constitui uma atitude política, uma recusa da fuga e da entrega ao medo, além de servir de exemplo às próximas gerações.

     

    Deste modo, For Sama ressalta a pluralidade do ativismo. Para quem se atém à imagem de guerrilheiros armados e contraterroristas, a jovem diretora fornece seu próprio exemplo, enquanto jornalista e artista, e o do marido, um médico que literalmente se mudou para dentro do hospital na intenção de atender ao maior número de vítimas possível. Certo, às vezes o projeto apela para recursos contestáveis – a música triste, os longos fades pós-ataques – quando a tristeza já estava suficientemente clara. Mesmo assim, o resultado consegue utilizar um caso específico não para se enaltecer, e sim para reforçar o material humano por trás dos ataques orquestrados por sírios e russos. Em paralelo, ressalta o poder do cinema em eternizar pessoas através de sua representação: embora muitos amigos tenham morrido nos ataques, eles estão preservados pela captação da cineasta.


     


    Al-Khateab fala com frequência sobre a apatia da comunidade internacional diante do genocídio, apelando à identificação do espectador com a causa local. Diante deste casal comum e sua pequena filha sorridente, que sequer se assusta com o barulho de disparos e explosões, fica difícil não criar empatia pelas vítimas. Mesmo assim, a estratégia pode ser contestada em sua eficácia política: o apelo à comoção produz frutos concretos? Uma iniciativa como esta pode aumentar a pressão por uma intervenção democrática, ou a proposta de sensibilização se tornaria retórica aos olhos do público? Em meio a tantas atrocidades mundiais e diárias, não há resposta fácil sobre a melhor maneira de impulsionar as populações a se unir.

     

    PS: For Sama também poderia levantar uma questão, cada vez mais urgente, sobre o papel estético do uso de drones no cinema, em especial no documentário. À medida que esta ferramenta se tornou mais acessível, mesmo filmes de baixíssimo orçamento como este conseguem utilizar a filmagem aérea abrangente. Além de contrastar bastante com o tom de urgência das imagens tremidas e de baixa qualidade, a captação via drones sobrevoando Alepo deixa a impressão de que, para os diretores, interessa mais abrir o enquadramento e registrar tudo o que for possível do que selecionar a parte que represente o todo. A maioria das imagens impessoais e mecânicas captadas no sobrevoo apenas salienta a ausência de escolha do olhar, ao invés da criação e seleção inerentes ao cinema. Além disso, a escolha se alia à fantasia da tecnologia digital de poder filmar o quanto quiser e “escolher depois, na montagem”. O automatismo destas imagens aéreas, quando utilizadas apenas em caráter informativo, empobrece bastante o gesto artístico.

     

    Filme visto no 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio de 2019.

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