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    Stardust
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Stardust

    O espaço entre o silêncio e a música

    por Barbara Demerov
    Quando falamos sobre uma figura tal qual David Bowie, o reflexo provavelmente já é o de pensar em alguma de suas canções ou, pelo menos, em seu estilo andrógeno inconfundível, surgido nos anos 70. É um tanto improvável direcionar o pensamento para uma época em que David ainda não era Bowie ou Ziggy Stardust. Mas é justamente nesta linha de pensamento que o diretor Gabriel Range se equilibra em Stardust, por bem ou por mal.

    O longa-metragem presente na 44ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo já ganhou um aspecto curioso desde o anúncio de sua produção. Era sabido que Range não obteve os direitos de nenhuma das canções de Bowie, tampouco a autorização oficial de sua família. Portanto, a natureza do projeto já teria de ser algo completamente diferente do que o público esperava ver, pois a biografia se encaixaria mais como uma "história de origem" do que um tributo permeado por seus clássicos.

    E o resultado condiz com o que já poderia ser esperado por todos -- mas isso não quer dizer que ele seja negativo. A escolha de Johnny Flynn no papel de David Bowie traz um olhar diferente àquela figura que sempre aparentava estar segura de si, ainda que dentro de uma personagem. Em Stardust, somos apresentados a um David Jones perdido em seus sonhos e receoso diante da realidade, sem qualquer tipo de perspectiva relacionada ao reconhecimento e à fama. Flynn entrega um Bowie diferente, isso é verdade, mas esta versão faz sentido. Afinal, nenhum fã ou entusiasta do artista tinha uma ideia clara do que existia antes de Ziggy.



    Stardust, então, se apoia em uma turnê que David Bowie fez pelos EUA na companhia de uma proibição curiosa: como ele não tinha visto ou qualquer tipo de permissão artística, foi proibido de cantar. Esta acaba por ser uma boa analogia entre a vida real de Bowie e o filme de Range em si: o artista que foi proibido de fazer a única coisa que lhe fez viajar para tão longe e o diretor que não pode complementar seu filme com os elementos que poderiam dar mais vida a ele. Mas, ainda assim, por mais sutil que seja, existe um foco de luz impossível de desviar a atenção -- e a dinâmica entre Flynn e Marc Maron (que interpreta o empresário Ron Oberman) é a responsável por isso.

    Se o espectador assiste ao filme esperando por uma breve citação de uma das músicas de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, terá de se contentar "apenas" com a cena final, em que Jones, Bowie e Ziggy já se tornaram uma pessoa só. Em um dos diálogos mais marcantes de Stardust, Oberman diz a um confuso David que ele poderia ser "outra pessoa". A solução parece sem sentido para o protagonista, mas ele entende no fundo que aquele é o momento de virada.

    Apesar de contar com diversos momentos vagarosos, em que a direção e a dinâmica da dupla principal parecem não saber para onde ir, Stardust conta com outras cenas que ganham poder através da sutileza. Por vezes, Range parece mergulhar tanto naquele ano de dúvidas e descobertas de David que ele próprio reflete tal sentimento no ritmo de seu filme. Se por um lado isso proporciona uma imersão diferenciada, mais pautada pelo processo do que pelo resultado, do outro o espectador pode chegar a pensar que é muito difícil pensar em Bowie apenas como David. Separado de sua essência mundialmente reconhecida, nem mesmo a sólida atuação de Flynn mantém a proposta no ar o tempo todo.
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