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    A Arrancada
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    A Arrancada

    Cuba, país em transformação

    por Bruno Carmelo

    O escopo deste documentário não poderia ser mais discreto: através de uma única família, composta por quatro membros, o diretor brasileiro Aldemar Matias pretende representar a tradição socialista em Cuba, seu período de transformação e a recente abertura sociopolítica. A mãe Marbelis, funcionária pública em centros de zoonoses, a filha adolescente Jenniffer, atleta promissora que pensa em abandonar o esporte após uma lesão, o filho Yeyo, cantor que planeja se mudar para o Chile, e o pai ausente das imagens, por estar na prisão, compõem um painel diversificado dentro de uma única casa.


    Felizmente, o cineasta evita qualquer tipo de explicação: não há cartelas, narração, material de arquivo, depoimentos para a câmera, trilha sonora indicando o tom de cada imagem. Estamos no território da observação atenta e silenciosa, ao mesmo tempo discreta, mas muito próxima de cada personagem. Matias atinge o difícil equilíbrio entre aproximar-se demais e ainda assim permitir que os familiares ajam livremente, sem se sentir intimidados pelo aparato cinematográfico. Ele evita, deste modo, tanto o aspecto voyeurista das filmagens à distância, escondidas, quanto a intervenção brusca que acabaria por modificar o ambiente retratado. A câmera se faz ao mesmo tempo presente e invisível.


     


    Em paralelo, La Arrancada extrai imagens belíssimas da vida cotidiana. O diretor possui um senso formidável de composição, tanto para os planos fixos (a apresentação do centro de atletismo onde treina Jenniffer) quando para as discretas movimentações acompanhando os gestos dos personagens dentro de casa (a mãe acendendo o charuto no fogão, a filha e o filho almoçando na cozinha). O filme sabe muito bem trabalhar os sons fora de quadro, além de fornecer um rico panorama sonoro dos estádios, dos escritórios e das ruas de Cuba.

     

    A sofisticação estética serve a construir em detalhes a personalidade dos personagens. Não é preciso dizer que Marbelis venera o passado socialista do país, basta filmar os cartazes gigantescos de Fidel Castro e Che Guevara pendurados acima de sua mesa. Não é necessário explicar que Jenniffer está descontente com os treinos, basta escutar sua voz triste ao telefone, com o namorado, ou então filmá-la à distância, sozinha nos treinos, enquanto os outros corredores conversam e brincam juntos. Este projeto constitui uma bela prova de que enquadramento, fotografia e montagem constituem instrumentos narrativos por si só, capazes de representar um mundo inteiro sem o apoio em recursos explicativos.


     


    Com estas escolhas, o diretor acredita na capacidade de seu espectador em tirar as próprias deduções sobre aquele cenário social: é possível acreditar que a vida era melhor antes da abertura, a julgar pela mãe, ou que o contexto atual se tornou mais democrático, graças à possibilidade de partida do filho. La Arrancada não articula uma conclusão unívoca nem emite julgamentos de valor, mas oferece fartos elementos para uma discussão dialética sobre a evolução do país. Em outras palavras, a política é percebida organicamente, por seu impacto na vida dos habitantes.

     

    Do mesmo modo, o espectador pode interpretar como preferir as cenas espetaculares de Jenniffer no centro de treinamento, atravessando o enquadramento com sua corrida: é possível deduzir que ela não se esforça mais e já abandonou a perspectiva de futuro, ou que vai voltar a se esforçar, ou ainda que executa as ordens do treinador mecanicamente. Pode-se apenas se deleitar com a construção estética, ou se concentrar no expressivo silêncio desses momentos. A última cena, magnífica articulação entre o presente (representado pelas imagens) e o futuro (representado pelo som), encerra da melhor forma possível este complexo projeto sobre as inseguranças quanto ao futuro de Jenniffer, de Marbelis, de Yeyo e de Cuba.

     

    Filme visto no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019.

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