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    Currais
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Currais

    Na pista da bárbarie

    por Renato Furtado
    Montanhas enormes em formato de pedras, corpos geográficos impossíveis, árvores retorcidas, abutres à espreita: cenas de uma terra imaginária, de hostil resplendor natural, mas quase fantástico. É no seco silêncio da paisagem que conhecemos Romeu (Rômulo Braga), um homem quieto, de olhar atento, que penetra o cenário ciente de que aquele não é o seu lugar. Estaciona sua kombi em um terreno baldio, sob às vistas das aves de rapina, mais um dentre tantos outros, e vasculha o chão, até encontrar um objeto esquecido que não deveria estar lá. Sente o peso do item nas mãos e respira o ar, antes de sacar seu gravador portátil para registrar palavras pesadas: "O silêncio apaga tudo".

    No entanto, ao cortar da inquieta mudez desta sequência para o ensurdecedor barulho de uma máquina trituradora, o filme-híbrido — tipo de projeto que mistura os códigos das obras de ficção com os das obras documentais — Currais se recusa a aceitar, novamente, o sigilo da história que revela: o conto de verdadeiro terror, brutalidade e carnificina por trás dos chamados "currais", uma invenção do governo Getúlio Vargas, em 1932, para reunir os flagelados, sobreviventes das graves secas que atingiram o Ceará naquele ano. Em troca da garantia de sua proteção, as vítimas da problemática ambiental eram enviadas, contudo, para o abate: os "currais" eram campos de concentração, em sua essência.

    Isto é o que nos informam as cartelas iniciais deste longa, que ainda chamam atenção para os ideais eugênicos do ditador gaúcho, partidário de uma estratégia de controle e reorganização populacional conhecida como "higienização social" — a eliminação de uma parcela marginalizada de uma sociedade para favorecer a continuidade das elites. Mas como narrar uma verdade que, a despeito de todas as evidências, documentadas em jornais impressos e cinematográficos da época, está enterrada no solo de um país? Através de um filme de detetive misturado com um road movie adicionado ao caldeirão de um tradicional resgate de materiais de arquivo, responderiam os diretores Sabina Colares e David Aguiar.

    Fugindo do clássico esquema dos talking heads — denotando as "cabeças falantes" da maioria das não-ficções já realizadas —, a dupla de cineastas combina gêneros cinematográficos e trata seu espectador como companheiro de viagens de Romeu, um homem determinado a acertar as contas com o passado ao seguir a trilha aberta por uma série de gravações feitas por seu avô, um dos flagelados de 1932. Operando, assim, quase como uma extensão do geólogo José Renato (Irandhir Santos), de Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, e acima de tudo como um personagem que poderia ter saído de um romance de Raymond Chandler ou de Dashiell Hammett, o papel faz de Braga o fio condutor de Currais.

    Ao tratar seus entrevistados como não-atores, o filme-híbrido grava os depoimentos de sobreviventes dos currais e de seus herdeiros por meio de uma ótica puramente ficcional, apoiada pela excelente fotografia assinada por Petrus Cariry (Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois), que se equilibra ora na poesia dos imensos espaços vazios do sertão, ora em seu caráter fantasmagórico. Com a câmera focada em Romeu, o longa traz seu protagonista abordando desconhecidos e jogando conversa fora Ceará adentro como fazem os detetives da literatura hardboiled: sempre charmosos, atentos ao diálogo, mas muito mais interessados nas informações e pistas que seus interlocutores guardam do que nas anedotas ouvidas.

    Para além de construir uma espinha dorsal narrativa atraente, com um fundo de suspense, Colares e Aguiar também se apropriam da grande questão fundamental das tramas policiais: todo e qualquer thriller de investigação é um combate direto pelo controle da verdade. Ou seja, entre o detetive e o criminoso, o vencedor não é aquele que sai ileso de eventuais embates físicos, mas aquele que emerge intocado do conflito intelectual: ganha quem tem a chance de contar a história no final, como provam obras distintas do gênero, como qualquer um dos livros de Agatha Christie ou o clássico Chinatown, de Roman Polanski. E no caso de Currais, o que os cineastas querem é assumir o comando dos pretéritos brasileiro e cearense.

    É fato que os relatos e registros que recontam a história de terror dos campos de concentração brasileiros são acessíveis — uma simples pesquisa na internet é o bastante. Sem embargo, este é um capítulo mudo, colocado à sombra da História pela inércia dos governos que seguiram o regime de Vargas e também pela mídia. O Brasil, assim como os outros estados soberanos ao redor do mundo, foi fundado por via de síntese, um processo de busca pelo progresso e de uma identidade nacional que necessariamente causou e ainda causa mortes. O que o documentário faz, portanto, é iluminar um episódio desconhecido de nosso passado, um ato fílmico que nos ajuda não só a entender o presente, como também o futuro.

    Escancarando as raízes de um dos muitos holocaustos brasileiros — as fotos que documentam a vida e a morte nos currais, repletas de deformidades físicas infernais e de doenças inimagináveis, parecem ter saído dos pesadelos mais assombrosos e insanos —, que vitimou quase 73 mil pessoas só em 1932, o filme de Colares e Aguiar resulta chocante e trágico. E é por isso mesmo que não se pode desviar o olhar de algumas de suas imagens mais atrozes, como a da trilha desenhada por cadáveres, jogados ao chão, ao lado da frieza da ferrovia: "aqueles que não podem lembrar o passado, estão condenados a repeti-lo", diz o mais relevante do que nunca aforismo do ensaísta e poeta espanhol George Santayana.

    É uma pena, portanto, que a potência de tantas das qualidades de Currais seja diluída por escolhas infelizes de roteiro, ao passo em que a segunda metade da projeção nunca consegue alcançar o mesmo nível estabelecido pelo início deste longa. Aos poucos, Romeu deixa de ser um personagem solitário e é presenteado com coadjuvantes que, pouco desenvolvidos, afastam o público do elemento eleito para nos conectar com a trama. Enquanto é óbvio que todos os testemunhos reunidos na parte final do longa são extremamente importantes, para que inserir novos interlocutores que não têm o mesmo passado que o personagem de Braga e que tampouco são peças tão instigantes quanto a do "detetive" protagonista?

    Uma vez que a senda ficcional dá lugar a um documentário padronizado, a essência que destacava este filme de seus pares começa a perder-se aos poucos. Por sua vez, a inserção de cenas simbólicas durante o desenlace da trama, que sai do compasso ao não aproveitar ocasiões perfeitas para arrematar toda sua argumentação teórica e dramática, também complica desnecessariamente o panorama. Se anteriormente as imagens de arquivo entrelaçavam-se perfeitamente com a jornada de Romeu, no fim, o material acaba sendo transformado por si só em uma trama auxiliar. O recado de Colares e Aguiar é dado, e disto não há dúvidas, mas isto é feito às custas do desarranjo de uma composição fílmica que, até então, era ímpar.

    Fica, por fim, a esperança de que esta talentosa dupla de diretores não desista da experimentação do hibridismo na próxima vez. Porque com os abutres à solta e à espreita, esta estreia é, sim, exitosa ao nos colocar frente à frente com aqueles que vieram antes de nós; ao destrinchar os segredos escondidos pelos alicerces das construções que ainda seguem em pé e que velam, em suas paredes, o horror; e, enfim, ao declarar que a humanidade é, em todas as eras, filha da bárbarie e da selvageria de seus pais e seus avôs. Irregularidades à parte, Currais soma ainda mais qualidade à recente tradição do cinema brasileiro de produções que questionam os limites entre a ficção e a realidade — se é que estes ainda existem.

    Filme visto na 22ª Mostra de Tiradentes, em janeiro de 2019.
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