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    Selfie
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Selfie

    Aos olhos de quem está realmente ali

    por Barbara Demerov
    Se, em sua definição, o documentário é "a apresentação de uma visão da realidade por meio da tela", é curioso notar que Selfie supera essa ideia. Como isso é possível? Através do método utilizado pelo diretor Agostino Ferrente, que entrega sua câmera a dois adolescentes, Alessandro e Pietro, a fim de garantir autenticidade. Os jovens são o reflexo de uma geração que convive com a violência no dia a dia em um distrito de Nápoles, na Itália. E o que a câmera capta - não a de Ferrente, mas a dos dois meninos - é o processo de representação de um cenário complexo.

    O trabalho do diretor soa mais como uma companhia distante aos jovens personagens, não exatamente um guia. Ferrente apenas dá as coordenadas de como usar a câmera - e o resto é com Alessandro e Pietro, no sentido de contarem suas vivências e de explorarem a cidade juntos. O olhar da câmera já não é mais do diretor. Já a montagem, feita por Letizia Caudullo e Chiara Russo, é a responsável por encaixar as peças, de modo que Selfie tenha em seu resultado final uma mescla de documentário com autoficção. Afinal, os personagens sabem que estão sendo filmados a todo o instante.



    Como o olhar privilegiado da história é o das pessoas que vivem aquela atmosfera todos os dias, a obra perde o caráter observativo (caso o diretor registrasse tudo com sua câmera, com sua visão externa) para, então, trazer mais veracidade ao tema explorado. Afinal, o modo mais apropriado de se garantir registros livres de suposições e do olhar estrangeiro (e majoritariamente profissional) diante de um fato é o de simplesmente fazer com que os dois amigos dirijam suas histórias.

    É por esse motivo que Selfie entra num patamar diferenciado dentro do gênero, em que o próprio diretor que assina a obra não tem poder diante das escolhas de suas personagens. Na verdade, ele escolheu usar seu documentário como dispositivo de alcance universal e entregá-lo nas mãos de pessoas anônimas, ampliando o significado do que significa "documentar" algo. O filme também ganha ótimos momentos durante entrevistas feitas com outros jovens que orbitam no mesmo universo de Alessandro e Pietro. Tais passagens são extremamente sentimentais e ajudam a captar o fardo que estas pessoas carregam em suas vidas, como se estivessem à deriva.

    A tragédia que aconteceu nas vidas dos dois jovens não só é a essência de Selfie mas também o ponto-médio para outras reflexões. E o mais interessante é ver como as reflexões originadas destas entrevistas não falam necessariamente sobre o assassinato do amigo dos protagonistas, mas compõem algo maior, com base na exclusão social e na sensação de não pertencer a um lugar específico. É curioso acompanhar uma história tão mundana através da linguagem cinematográfica, mas é ainda mais intrigante acompanhá-la de um jeito tão pessoal, como se fosse com nossos próprios olhos. É possível documentar estando apenas de passagem, mas no caso de Alessandro e Pietro, a verdade sai de forma mais pura.

    Filme visto durante a 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, em setembro de 2020.
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