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    Mike Wallace Está Aqui
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Mike Wallace Está Aqui

    Jornalismo, esporte de combate

    por Bruno Carmelo

    O início deste documentário recorre à maneira mais imediata de representar a importância de Mike Wallace para a imprensa norte-americana: uma colagem dos grandes nomes entrevistados por ele, de atores de Hollywood aos presidentes dos mais diversos países. O jornalista é valorizado, deste modo, por sua coleção de conquistas. O diretor Avi Belkin sublinha: ele não apenas conversou com todas essas pessoas, mas incomodou a todas elas com seus questionamentos agressivos, sem meias-palavras para confrontar mafiosos sobre seus assassinatos ou estrelas do cinema sobre seus segredos pessoais. Wallace é visto como o tipo destemido num mar de profissionais chapa-branca.


    Esta escolha implica na inevitável idealização do protagonista, percebido como visionário em sua abordagem, salvador de programas de TV e rádio em crise, essencial à mudança da opinião pública norte-americana contra a Guerra do Vietnã e pivô de crises políticas no Oriente Médio. Não há dúvida que Wallace teve uma participação nestes momentos históricos, porém incomoda a tendência a apontá-lo como o único, ou o principal, ator influente em episódios tão amplos. A tendência à valorização autoral se acentua pelo tipo de entrevista agressiva e retórica, na qual pouco importa a resposta, pois o prazer do espectador se encontra no choque da pergunta, no fato de ver um homem poderoso incomodado e atônito. Cada entrevista possui um ar de revanche, e neste revanchismo o documentário apresenta Wallace como seu melhor lutador.


     


    O projeto se desenvolve em ritmo bastante agradável, muitíssimo bem agenciado pela edição. A montagem opta por telas divididas, fragmentos de entrevistas das mais diversas épocas, trabalhando a partir de um material de arquivo riquíssimo, bem pesquisado e selecionado. Os amplos recursos da produção se tornam evidentes pela trilha sonora discreta, a coesão entre os materiais de diversas épocas, a fluidez do discurso e a atualização da linguagem para um público contemporâneo, acostumado à sucessão rápida de vídeos e à associação veloz entre décadas, escândalos e episódios. O filme salta de Putin à morte do filho do jornalista, da briga pela audiência à tentativa de suicídio, com uma organicidade exemplar. Deste modo, foge à linearidade tediosa de tantos documentários biográficos equivalentes.

     

    Além disso, consegue fornecer uma discussão pertinente sobre o valor do jornalismo investigativo. Ainda que o filme defenda a abordagem acusatória, ele permite que vozes contrárias se levantem para acusar Wallace de ser um explorador, vaidoso, alguém que passou a vida inteira tentando provar o seu valor. O documentário destrincha os motivos pelos quais um jornalista agressivo se tornaria mais brando, mais conivente com as altas esferas do poder. Pode-se argumentar que tal defesa serve apenas a enaltecer Wallace – mesmo quando é acusado de ser arrogante, os ataques servem sobretudo a enaltecer sua persona exótica e temida – porém ao menos permitem uma discussão sobre a relação entre a imprensa e os fatos para além dos chavões do tipo “o povo tem o direito de saber”.


     


    Resta por fim uma defesa da integridade pessoal e da necessidade de lutar contra o consenso – uma espécie de elogio da marginalidade, enfim. Este jornalista adorado por uns e detestado por outros é descrito como um homem profundamente coerente consigo mesmo, que recusa a aposentadoria mesmo em idade avançada. Em outras palavras, ele também é avaliado por sua performance, seu volume de produção, sua persistência. Mike Wallace Está Aqui jamais coloca seu personagem contra a parede do mesmo modo que este o faz com seus entrevistados, mas permite algumas fissuras brandas na hagiografia proposta. Ironicamente, o filme acaba se saindo melhor no debate sobre o jornalismo do que na representação do jornalista.

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