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    Espero tua (Re)volta
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    Espero tua (Re)volta

    O documentário ficcionalizado

    por Bruno Carmelo

    O primeiro elemento de surpresa neste projeto é sua linguagem visual e narrativa. Uma música divertida se articula com cortes rápidos enquanto vozes jovens comentam imagens das manifestações estudantis de 2015. “Ei, mano, o bagulho é muito mais louco do que isso!”. Estamos numa exibição concebida para adolescentes, adotando um ponto de vista adolescente. A escolha é compreensível, afinal, poucos projetos políticos se destinam a esta parcela política fundamental na reconstrução social brasileira.


    Algo soa estranho, no entanto. A voz do ativista Lucas Koka se dirige a “você que está vendo de fora”, sinal de que o discurso não mira apenas os jovens da periferia, principais atores dos protestos de 2015 e 2016. Estariam falando com a juventude burguesa, de escolas privadas? Seria o projeto voltado o público estrangeiro, o primeiro que assistirá à obra? Busca-se a conscientização, a adesão, ou meramente a informação? Enquanto isso, uma voz didática e quase ingênua comemora que, naqueles confrontos com a polícia, “aprendemos a lutar por nossos ideais!”. A luta seria uma finalidade em si, independentemente das conquistas obtidas?


     


    Espero tua (Re)volta se desloca entre estas e outras formas de analisar o problema e buscar soluções. O posicionamento político é claro: a diretora Eliza Capai demonstra afeto profundo pelos jovens, faz questão de lhes dar voz e protagonismo, cuida para que representem uma parcela ampla da sociedade (homens e mulheres, brancos e negros, heterossexuais e homossexuais). Ela apoia as manifestações, a coragem destes jovens e a necessidade de frear retrocessos, esperando que o ativismo persista nas próximas gerações. Além disso, busca uma linguagem capaz de se comunicar melhor com o público da era dos smartphones, das redes sociais, dos memes, da “lacração”.

     

    Apesar da iniciativa apaixonada, o resultado é bastante prejudicado pela narração escolhida. Primeiro, por sua onipresença: o filme é quase inteiramente comentado por Lucas Koka, Marcela Jesus e Marcela Souza, deixando pouco ao espectador para observar e tirar as suas próprias conclusões. O olhar da direção não confia na capacidade cognitiva do público, precisando guiá-lo quanto ao tom, ao conteúdo, à temporalidade. Cada cena vem pré-significada, explicada, o que dificulta a produção de interpretações dissonantes. O discurso se torna menos um convite à reflexão do que uma palestra.

     

    Segundo, porque os narradores em off ficcionalizam o documentário. Eles se transformam em personagens com um discurso articulado, de certo modo sedutor ao interpelar o espectador (“Tá ligado naquele bagulho?”), e ao interagir uns com os outros. Estas vozes não apenas saturam as imagens, mas também julgam: elas comentam a aparência das meninas, dizem qual dia foi mais tenso. Os narradores reclamam uns com os outros quando Lucas fica tempo demais falando, quando Marcela ainda não parou de discursar etc. Espero tua (Re)volta proporciona a curiosa sensação de assistir a uma sessão comentada, com um debate simultâneo. Em meio à cacofonia, o espectador é colocado no plano de fundo.


     


    Uma cena, a melhor do documentário, carrega toda a força dos movimentos estudantis, do abuso de força dos policiais, do preconceito e da normalização da violência. Enquanto dois amigos compartilham impressões diante da câmera, um terceiro é revistado por um policial ao fundo. Não havia qualquer motivo para o garoto ser parado, mas sua condição periférica o torna automaticamente suspeito aos olhos das autoridades. Os dois amigos percebem a revista, não se surpreendem por estarem acostumados a situações semelhantes, e retomam a conversa enquanto o outro não vem. Este trecho tragicômico, felizmente sem narração, traduz em poucos minutos muito do que o projeto busca transmitir.

     

    Entretanto, trata-se de uma cena excepcional no conjunto que busca, com o mesmo furor dos adolescentes, debater racismo, misoginia, especulação imobiliária, superlotação dos presídios e muitos outros temas interligados, porém sem a possibilidade de aprofundamento. Mesmo com a condução paciente e didática do trio de comentaristas, o projeto soa confuso em suas vozes sobrepostas e seu uso da linguagem cinematográfica. Como os jovens, igualmente, ele é movido por paixões, pelo sentimento de urgência, menos do que por uma articulação sofisticada de sons e imagens.

     

    Filme visto no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019.

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    Comentários

    • JM Mendes
      Que crítica de merda
    • VINICIUS DE ABREU BOLINA
      Vai tomar no cu!
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