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    Terra à Deriva
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Terra à Deriva

    Novas catástrofes

    por Bruno Carmelo

    Este filme chinês chega às plataformas de streaming brasileiras após se tornar um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos em seu país. Apesar da raridade de nos depararmos com uma produção popular chinesa, a estrutura do projeto corresponde ao padrão da ficção científica e do cinema-catástrofe norte-americano, focando-se num grupo de cientistas salvando o planeta de uma ameaça à humanidade. Desta vez, em busca de novas fontes de energia no sistema solar, a Terra é deslocada via propulsores gigantescos, até correr o risco de colidir com Júpiter.

     

    Questões de física à parte, Terra à Deriva impressiona pelos efeitos visuais. Talvez fosse apressado dizer que a tecnologia digital seja pior do que aquela empregada em Hollywood. Seria melhor dizer que a textura dos efeitos é diferente, mais próxima da configuração dos videogames ultrarrealistas do que do CGI típico dos filmes norte-americanos. De qualquer modo, ainda que soe artificial em determinados momentos, o resultado é amplamente convincente para um projeto que custou US$50 milhões – muito menos do que os equivalentes ocidentais do mesmo porte. A produção transparece competência, correspondendo à estética espetacular aguardada de uma viagem interplanetária.


     


    Além disso, a concepção visual é criativa, tirando proveito da premissa fantasiosa para imaginar diversos jogos de luzes e cores. O jovem diretor Frant Gwo investe numa alternância entre planos próximos dos personagens, enquanto conversam, e grandes planos gerais conforme avançam por alguma paisagem desconhecida. Não existem meios termos entre esses registros: as imagens focam-se ora nos protagonistas, ora na imensidão, de modo a apequenar os humanos diante da magnitude do universo. O cineasta investe no estetismo ao apresentar diversos planos que se aproximam de pinturas digitais pouco naturalistas, embora bem-sucedidas em sua proposta.

     

    Para o público deste lado do globo, cabe ressaltar a surpresa de encontrar o heroísmo desvinculado da virilidade e mesmo dos valores familiares. Não existem relacionamentos amorosos neste filme, o que significa que os heróis não voltam para casa na intenção de encontrar as belas esposas e os filhos pequenos, como de praxe na moral americana. Embora a relação familiar seja importante dentro da trama, ela não se encaminha ao reencontro prometido, e tampouco reafirma um amor incondicional entre pai e filho. O roteiro dilui esses laços afetivos com o acréscimo de avós e amigos – caso em que o projeto faz um aceno aos vizinhos russos, outra nação essencial no resgate da humanidade face à ameaça natural. Aliás, o simples fato de não haver um vilão propriamente dito (os personagens lutam contra as leis da física e contra as limitações de nossa tecnologia) soa como uma bem-vinda ruptura dos clichês habituais.


     


    Por outro lado, é uma pena que esta configuração relativamente contrária aos padrões seja prejudicada por um roteiro tão mal costurado. Frant Gwo condensa em cerca de duas horas uma quantidade de informações e reviravoltas dignas de uma extensa série de televisão, sem se atardar na psicologia dos personagens, nas descobertas científicas nem nos riscos de cada missão. Tanto a montagem quanto o roteiro pulam freneticamente de uma decisão à outra, de um núcleo de personagens ao outro, privando-se de sugerir o antes e o depois de cada cena. O resultado é uma condução caótica que, na ausência de um suspense ou drama eficaz, apenas lança novas ações sem convidar o espectador a temer ou torcer por quem quer que seja.

     

    Terra à Deriva se conclui como uma obra fria, cujo pretenso humanismo – a mensagem de que todas as nações podem se unir num governo único e trabalhar de mãos dadas – se perde entre tantos saltos no tempo, tantas cenas espetaculares no gelo, no espaço, dentro das naves, nas prisões, sobre plataformas espaciais ou a alguns passos de Júpiter. O filme não se preocupa em explicar como os protagonistas chegaram de um ponto ao outro, quanto tempo cada ação durou, qual o impacto de cada resolução nos conflitos futuros. Como um rolo compressor, ele esmaga tudo à sua frente sem pensar na coerência do conjunto ou nos caminhos propostos no início. O blockbuster chinês de fato impressiona e se distingue da média, ainda que nem sempre pelos melhores motivos.

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