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    Blitz
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    Blitz

    O tango do policial militar

    por Bruno Carmelo

    Este drama se inicia com a cena da blitz mencionada pelo título. Policiais militares revistam alunos numa escola, ainda que o espectador desconheça tanto o fator que originou a intervenção quanto os critérios para a seleção daqueles alunos em particular. Para uma cena de confronto policial, o tom resulta um tanto plácido – ouvimos poucas conversas, pouco ruído ao fundo, apenas o som das árvores balançando ao lado do PM Cabo Rosinha (Rui Ricardo Dias). Quando se escuta o disparo de uma arma, o espectador presencia apenas as pernas dos garotos correndo por todos os lados, além das folhas no chão. O espectador não descobrirá nada sobre a vítima (nem mesmo o nome), tampouco sobre os demais policiais envolvidos. O caso interessa apenas para investigarmos a psicologia do militar atormentado.

     

    A decisão de registrar um caso de violência policial arbitrária pelo ponto de vista unicamente de um militar representa um risco importante que o diretor René Tada Brasil decide enfrentar. Embora não transforme Rosinha numa infeliz vítima das circunstâncias, o roteiro deixa a impressão de que “acidentes acontecem”, de que não havia nenhum componente racista ou elitista envolvido, e de que a índole do protagonista, no fundo, era boa. Numa época em que tiros arbitrários acertam tantas crianças desprivilegiadas, reforçar unicamente a índole bondosa dos atiradores, sem enxergar falhas estruturais, resulta num viés político e social questionável. O drama ganharia muito caso saísse da casa onde moram o protagonista e sua esposa Heloísa (Georgina Castro), mas prefere perambular pelos cômodos do imóvel fantasma, silencioso.


     


    No entanto, o início do projeto demonstrava bom potencial poético e dramático. O uso do som distante, o barulho ensurdecedor do vento e os olhares inquisidores dos vizinhos constroem uma atmosfera eficiente de paranoia. É uma pena que estes elementos ou sumam na trama, ou sejam utilizados em excesso nas cenas seguintes. Blitz passa a adotar uma estrutura linear e um tanto repetitiva, que consiste basicamente em deslocar os protagonistas por diferentes partes da casa. Rosa e Heloísa confrontam-se no quarto, na cozinha, na sala, nos corredores. Ora um levanta e o outro senta, ora um ameaça sair pela porta, e depois o outro faz o mesmo movimento, numa coreografia precisa, porém circular. Por não produzirem conflitos específicos nem implicarem em qualquer interação com o ambiente (que permanece no estágio de cenário), estes deslocamentos soam retóricos, incapazes de esconder a origem teatral do projeto.

     

    Ainda mais curiosa é a maneira como o cineasta dirige seus atores. Marido e mulher interagem de modo melancólico numa cena, apenas para se levantarem e se tornarem agressivos no momento seguinte, adotando então um teor sedutor na próxima conversa, e um trejeito manipulador minutos mais tarde. Rui Ricardo Dias e Georgina Castro são capazes de encarnar todas estas versões com facilidade, porém a transição de um estilo a outro soa fortuita. Deste modo, os personagens transparecem uma inconsistência: afinal, Rosinha é um homem machista e manipulador (como deixa a entender a cena envolvendo um revólver) ou apenas um pai traumatizado pela perda do filho? Heloísa culpa o marido pelo crime envolvendo o garoto na escola ou consente com o discurso entoado por ele? O que o caso tem a dizer sobre o contexto sociocultural em que todos eles estão envolvidos?


     


    Em meio a tantas indefinições, Blitz se torna um projeto com bons momentos esparsos, incapazes de se comunicarem entre si. Rosinha avança com fervor e depois recua, Heloísa toma a dianteira e em seguida se deixa levar pelo marido. O filme ora investe no discurso sobre a moral religiosa, ora o abandona. A fotografia hesita entre as belas cenas crepusculares no topo da casa e alguns enquadramentos menos expressivos dentro da sala, enquanto a concepção sonora investe em alguns importantes momentos de silêncio, apenas para exagerar nos pianos tristes e nas cordas dramáticas da trilha sonora logo em seguida. Os diálogos às vezes apostam numa conversa corriqueira, às vezes preferem os maneirismos teatrais. A iniciativa de partir de um caso particular para refletir sobre uma questão global é promissora, porém o drama se encerra em si mesmo, incapaz de fornecer uma discussão sobre a violência policial, a impunidade, a marginalidade e as práticas contemporâneas de justiçamento popular.

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