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    First Cow
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    First Cow

    O extraordinário no cotidiano

    por Barbara Demerov
    A premissa deste filme é mais simples do que se pode imaginar. Trata-se de uma história sobre dois estranhos que se identificam um com o outro e criam um negócio de produção de doces. Para isso, eles precisam do leite da vaca de um fazendeiro local - o que é muito perigoso, tendo em vista que First Cow se passa nas florestas da América no século XIX, tomadas por violência e sede de vingança.

    Mas nem mesmo o receio de os dois homens serem pegos eventualmente os impede de crescerem enquanto empresários, mesmo numa época em que a profissão ainda não existia de fato. O que a diretora Kelly Reichardt faz em seu novo filme é um exercício de desenvolvimento que poucos cineastas têm hoje em dia: não é só sobre o mérito de tornar uma situação limitada em uma narrativa tão rica em detalhes, sons e imagens; é sobre inserir vários gêneros numa só obra.

    São elementos do western e elementos e do cinema independente atuando em conjunto, com contrastes muito interessantes. Em First Cow, vemos a rivalidade masculina no bar da cidade, mas também conhecemos seus personagens sem que seja necessária muita informação: sabemos pouco de onde eles vieram em diálogos pouco expositivos. O que importa é o agora, o passar dos dias silenciosos na floresta e cada mínimo detalhe da missão arriscada de se tirar o leite da vaca todas as noites.



    A trivialidade é explorada em doses repletas de planos abertos, que evidenciam tanto vastidão quanto afastamento. A dupla formada por Cookie (John Magaro) e Orion (King Lu) é simpática e constrói uma bela afinidade desde seu primeiro encontro, e a melhor característica que transita entre os personagens é que tudo ali acontece de forma natural - incluindo o gesto de Cookie em levar flores para Orion na primeira vez em que o visita na sua casa, por exemplo. O puro sentimento de confiança construído em poucas palavras é comovente, assim como ela permanece mesmo após sérias adversidades. 

    Apesar de possui uma trama descomplicada, First Cow conta com um artifício no roteiro que muda absolutamente tudo. A cena inicial mostra uma jovem encontrando dois esqueletos na floresta, já nos dias atuais. Após a descoberta, a narrativa imediatamente nos apresenta a Cookie, não indicando de início a mudança temporal. Quando Orion aparece, é assim que descobrimos que ambos os personagens morrerão juntos; o que não sabemos é como nem por que isso acontecerá.

    O mais notável é que a curiosidade em saber o que pode ou não acontecer não prejudica o aprofundamento da história, pois dá para sentir desde o início que o que mais se destaca é justamente a atmosfera soturna e o desenrolar compassado (nunca tedioso) nos quais o enredo se passa. O modo como a história aborda os bens e os males do capitalismo numa época diferente, assim como a fatalidade andando de mãos dadas com a afetuosidade, é muito acertado. First Cow não é um filme de ação ou aventura. É um filme que manifesta sua melhor forma quando esta se propaga no silêncio, pois a verdadeira ação está nos gestos e olhares contínuos diante do simples foco em sobreviver.

    Filme visto no 70º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2020.
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