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    O Rei de Roma
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    O Rei de Roma

    Tempestade em copo d'água

    por Renato Furtado
    Máquinas de fliperama, corredores suntuosos, pequenos carros para percorrer a enorme extensão da mansão e uma jacuzzi no terraço, com uma belíssima vista para ainda mais bela Roma, a Cidade Eterna: tudo é perfeito na vida de Numa Tempesta (Marco Giallini), um milionário italiano cujos negócios tocam quase todos os âmbitos da sociedade europeia e global, em particular o ramo imobiliário e urbanista. O empresário deseja, afinal de contas, construir não uma, mas duas metrópoles em uma região hostil e deserta do Cazaquistão. Isto, é claro, até ser obrigado a cumprir serviço comunitário em um abrigo para moradores de rua como pena alternativa para sua condenação fiscal por evasão de divisas.

    À primeira vista, por via da tradição satírica do cinema italiano contemporâneo — escola compartilhada pelo diretor desta obra, Daniele Luchetti, com seus contemporâneos, os mais internacionalmente reconhecidos Paolo Sorrentino (A Grande Beleza) e Nanni Moretti (Mia Madre) —, O Rei de Roma concretiza aquela velha, porém certeira reclamação: os políticos e os ricos precisam de um choque de realidade, de um contato direto com as agruras do povo, para sofrer o que a população sofre, uma forma de castigo pelos atos ilícitos cometidos pelos poderosos às custas dos pobres. E na Itália, como no Brasil, a política é uma fonte inesgotável de situações conturbadas, corrupção sistêmica e cenas tragicômicas.



    Mas é precisamente aqui que Luchetti opera sua mais feliz inversão e evita o moralismo. Ao negar a esperada curva de evolução pessoal de Tempesta, que poderia enobrecer seu espírito com a convivência com os menos favorecidos, o realizador apresenta a verdadeira tese de O Rei de Roma: todos nós somos ligados, para além das barreiras de classe e de ideologia, pelo corruptível e frágil tecido da condição humana. Assim, o cineasta zomba de todos, e não sobra viva alma que possa escapar de sua mira certeira, uma vez que os sem-teto são tão gananciosos e amorais quanto o próprio Tempesta, que não encontra dificuldades para seduzir e fazer apodrecer até mesmo uma convicta freira, Angela (Eleonora Danco).

    Nivelados em suas ambições desmedidas por capital e poder, Tempesta e os moradores de rua, liderados pelo canastrão e malandro Bruno (Elio Germano), rapidamente constroem um pacto inglório, cujo aspecto burlesco é potencializado tanto pelas personalidades idiossincráticas do bando de marginais constituído pelo empresário e seus companheiros, quanto pela trilha sonora, que remete às composições circenses de Nino Rota, o músico de Federico Fellini. A ambientação musical soma-se, portanto, às figuras e caricaturas que povoam a comédia de Luchetti, inserida, pelo próprio diretor, na corrente da opera buffa, a ácida e jocosa comédia de costumes do teatro italiano, focada, sobretudo, em temas prosaicos e cotidianos.



    Impressiona, portanto — e de maneira negativa, diga-se de passagem —, como O Rei de Roma não faz rir: como o filme não é engraçado. Apesar de suas evidentes pretensões cômicas e satíricas, o resultado, como um todo, aproxima-se de um drama manso, de fundo psicologicamente raso, representado eminentemente pelas personagens das prostitutas que, de dia, são estudantes de psicologia. A sátira, como formato narrativo, é acompanhada por riscos, sendo um deles a potencialidade das caricaturas ineficazes — e o longa, pontuado por exageros de exageros de traços e de características humanas, acaba soando mais como mera zombaria, sem nunca aproximar-se da análise crítica que é o cerne das sátiras.

    De certo modo, é como se Luchetti tivesse se contentado em colocar seus objetos de estudo sob as lentes do microscópio por puro exercício de visualização; não há um esforço, em outras palavras, de dissecação dos personagens e dos vícios que nos são apresentados. É uma simples sequência de eventos, em suma, que limita-se a tirar sarro, totalmente distanciada da fúria dramática que esconde-se sob a máscara hilária dos roteiros de cineastas como Adam McKay (A Grande Aposta, Vice) e o próprio Sorrentino (O Divo), dois dos mais proeminentes satiristas políticos em atividades hoje na sétima arte, que compreendem à perfeição que ironizar figuras de poder não é uma rota para esvaziar as profundezas de suas complicadas psiques.



    E, assim, enquanto a interpretação de Giallini como Tempesta não conquista a audiência, como devem fazer os melhores vilões, mesmo que encante a todos ao seu redor na diegese, O Rei de Roma parece equilibrar-se, desconfortavelmente, no terreno cinzento e nada neutro no qual coabitam o drama e a comédia, duas vertentes que Luchetti, aqui, não consegue manejar e conjugar. A abordagem psicanalítica, enfim, através da qual os malfeitos de Tempesta são examinadas não permite que esta irregular empreitada possa conferir o peso necessário à sua conclusão: indivíduos como o protagonista, que são quem são, não têm salvação — não há redenção para os impuros.

    Tal argumento, apesar de seu pendor moralista, poderia ser elevado pela via da astúcia, mas é, infelizmente, solapado pela indecisão de Luchetti, que não sabe que caminho seguir: ou o drama entre pais e filhos, relação esta que permeia os personagens de Giallini e de Germano, aproximando-os ainda mais; ou a sátira, pouco eficiente e mordaz, que aponta falhas críticas humanas ao invés de anatomizá-las. Paradoxalmente apoiado pela luxuosa fotografia de Luca Bigazzi (The Young Pope), O Rei de Roma acaba por se assemelhar aos dramas de guerra que têm como objetivo criminalizar os conflitos bélicos em si: sem nem perceber, Luchetti celebra e glorifica, no fim das contas, tudo aquilo que nos prometera condenar.
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