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    A Grande Dama do Cinema
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    A Grande Dama do Cinema

    Uma família incomum

    por Barbara Demerov
    O roteirista Martin (Marcos Mundstock), o ator fracassado Pedro (Luis Brandoni) e Oscar (Norberto Imbert), um diretor das antigas, vivem em uma mansão no interior de Buenos Aires com uma atriz que fez muito sucesso no passado. Eles guardam a casa como se ela fosse uma verdadeira fortaleza que precisasse ser protegida a todo custo, e até os tiros dados às doninhas, que tanto incomodam Mara Ordaz (Graciela Borges) pelo barulho, podem ser vistos como uma metáfora sobre até onde eles iriam para proteger esta "dama do cinema": até mesmo atirando em seres aparentemente inofensivos. A nova adaptação do filme homônimo de 1976 fala bastante sobre as consequências de envelhecer e a importância da amizade e de revisitar o passado – pois, às vezes, ele não pode ser 100% superado.

    Dirigido por Juan José Campanella (O Segredo dos Seus Olhos), esta história pode ser reconhecida como uma comédia num primeiro momento, mas possui bons tons de dramaticidade por nos fazer adentrar facilmente naquele local afastado com um ambiente recheado de dores, memórias e indagações do quarteto de personagens principais – além de, ao inserir um casal jovem que aparentemente é fã do trabalho de Ordaz, fazer com que o grupo de idosos duelem ainda mais entre si com suas questões mal resolvidas. Aliás, é fato que os jovens Francisco (Nicolás Francella) e Bárbara (Clara Lago) são os verdadeiros "vilões" da história; o diretor deixa isso claro nos diálogos que antecedem suas chegadas, quando Oscar fala que toda narrativa precisa de um mocinho e um vilão.



    Com diversos símbolos e uma trilha-sonora que já deixa alguns "spoilers" do que poderá acontecer a seguir, como se a história narrada fosse como um filme para este seleto grupo que se manteve longe dos holofotes e do mundo real por 40 anos, A Grande Dama do Cinema já começa dando espaço para todo o glamour que a protagonista não quer abrir mão – e a excelente atuação de Borges, famosa atriz argentina, só auxilia nessa crença do quanto sua personagem é apegada a tudo o que a fez feliz com relação ao cinema: desde a casa (que remete bastante à locação de Sunset Boulevard) até sua estatueta do Oscar posta bem no centro da mansão, frente à entrada. Ainda mais que isso, sua felicidade estampada a cada elogio que recebe de Bárbara e Francisco mostra que sua ingenuidade pode lhe colocar em situações complicadas, mostrando sua insegurança.

    O relacionamento que possui com os demais homens da casa, extremamente preocupados com seu bem estar (por mais que isso não fique tão aparente à Mara e nem ao espectador no início), é o ponto alto do longa e o elemento que mais mescla comédia, drama e romance. O quarteto tem uma sintonia aparente – especialmente entre Marin, Pedro e Oscar – e ela fica ainda mais evidente quando os embates com o casal de jovens, que almeja conquistar a mansão, vão se intensificando. Aproveitando partidas de bilhar a xadrez, os senhores têm diversas formas de mostrar que sabem qual jogo estão jogando.

    A Grande Dama do Cinema possui uma atmosfera tão calma quanto bizarra (especialmente em seu terceiro ato), e é justamente esta mistura que faz o filme de Campanella ser tão diferenciado. Dificilmente o espectador sairá intocado pelas emoções que os personagens deixam de modo tão marcante na tela: o zelo, a paixão, o desejo e a nostalgia montam a base dos moradores daquela mansão, que por sua vez insistem em fazer Mara perceber tais sentimentos com muita paciência. Este é, portanto, um filme que sabe mesclar criatividade com a simplicidade do afeto.
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