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Boi de Lágrimas
Críticas AdoroCinema
3,0
Legal
Boi de Lágrimas

Resistindo por diferentes formas

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Formigas trabalhando em conjunto se misturam com imagens de humanos com semblantes cansados, que parecem não suportar o peso que carregam interna e externamente. Tal contraste é colocado logo no início de Boi de Lágrimas, de Frederico Machado. O diretor de filmes experimentais e independentes segue um estilo sóbrio que encontra o suspense em seu novo projeto, filmado em três dias e que mostra, através da individualidade de seus personagens, o quanto a política e a cultura se assemelham enquanto formas de protesto.

O título do filme também é o título de uma música da cantora Alcione, cujos versos têm muito a ver com a mensagem que o diretor quer passar. "Levanta boi e vai, que é pro amo ver que boi também chora, também sente dor", uma das passagens da canção, ganha bastante sentido após o espectador entender o que se passa dentre os cinco personagens retratados ao longo do filme, cuja tristeza, dor e pesar são expressadas na maior parte do tempo. Esbanjando tantos sentimentos negativos, o que mais chama atenção em Boi de Lágrimas é o modo como Frederico conta sua história: sem precisar que aquelas pessoas falem uma única palavra.



A comunicação entre o pai, a mãe, a filha, o namorado da filha e o amigo da família é colocada com uma ausência muito forte que só é entrecortada pelo som da televisão (sempre mostrando notícias ligadas à política no Brasil). Tal escolha em apresentar seus personagens deste modo, sem que nada seja dito, ganha mais sentido e detalhes com o direcionamento de Frederico, sempre destacando suas faces e expressões, sobretudo tristes. Solitários e isolados, eles utilizam da cultura do "Bumba Meu Boi", da dança, para extravasar e criarem suas manifestações – com exceção da filha, que além de dançar também entoa palavras como "Fora Temer" (que não chegam a ser ouvidas pelo espectador) em passeatas políticas contra as Reformas Trabalhista e da Previdência.

Além do domínio que possui ao fazer deste filme um suspense sensorial pela ausência de diálogos, Frederico Machado também se expressa através de cores (como já é praticamente uma marca registrada em seus trabalhos). A cor vermelha se mostra presente em quase todo o momento, especialmente quando posta nos rostos dos personagens ou em momentos mais dramáticos (como no parto da esposa), representando dor e violência.

Se uma das primeiras imagens que podem ser vistas em Boi de Lágrimas é a sequência das formigas trabalhando, a primeira coisa que o espectador escuta enquanto a tela ainda está escura é o recorte de vários pronunciamentos de figuras históricas da política. O viés político nunca se perde durante a execução da obra, mas a visão de manifestação vai misturando os protestos da filha com a satisfação (ainda que discreta) do pai dançando em meio à apresentação da dança do folclore brasileiro.
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