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    A Viagem Extraordinária de Celeste García
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    A Viagem Extraordinária de Celeste García

    A vida alienígena

    por Bruno Carmelo

    Os extraterrestres já estão entre nós. Eles possuem a aparência de pessoas comuns, e circulam pela Terra há anos no intuito de nos estudar. Ao contrário do imaginário popular, não pretendem nos atacar, pelo contrário: os visitantes até se oferecem para levar alguns de nós em sua nave espacial. Todas essas informações são apresentadas no noticiário da televisão, com a calma de quem anuncia um quiproquó político qualquer. Interessados em deixar a Terra rumo ao planeta dos Gryok podem se candidatar. Formam-se então filas repletas de aventureiros, criminosos tentando escapar de seus crimes, mulheres grávidas dos gryok e principalmente solitários, como Celeste García (Maria Isabel Diaz), professora aposentada, respeitada por todos e amada por quase ninguém. Com um globo terrestre sob os braços, ela se acredita na missão de ensinar os futuros anfitriões sobre a geografia cubana.  

     

    A premissa desta comédia é interessantíssima. Haveria mil possibilidades de prosseguir com o imaginário da ficção científica, através da possibilidade de abandonar o planeta rumo algo melhor que a triste vida terráquea – ou, ao menos assim, se espera. No fundo, a fábula diz menos sobre os outros do que sobre nós mesmos: a busca pela fuga definitiva (não apenas de país, mas de planeta) refletiria o fracasso do nosso conceito de civilização. Como em toda ficção científica, portanto, a imaginação do sobre-humano serve para espelhar medos e desejos bastante humanos. Seria tentador encaminhar a história como num conto de José Saramago, onde o ponto de partida absurdo encadeia uma análise do comportamento verossímil dentro daquele contexto, ou talvez numa sugestão mais sombria, a exemplo dos pesadelos de Edgar Allan Poe. O diretor Arturo Infante poderia seguir pelo imaginário kitsch dos alienígenas, pelas brigas entre humanos para ocuparem uma vaga na nave espacial, pelos embates entre humanos e extraterrestres.


     


    Ora, A Viagem Extraordinária de Celeste Garcia evita qualquer um destes caminhos. Diante do horizonte de conflitos possíveis, escolhe uma narrativa linear, singela, sem tensão. Celeste apenas consente em partir, arruma suas malas e ingressa o “campo de treinamento” necessário à viagem. O espectador não deve demorar a compreender que a comédia se interessa muito mais pela promessa da fantasia do que pela fantasia em si. Infante não pretende criar cenários intergalácticos nem seres esverdeados de olhos grandes. A criatividade do roteiro e as restrições de orçamento o levam a concentrar a jornada de Celeste na espera pela viagem, ou seja, no prelúdio anunciado de uma vida melhor. A narrativa segue tão desprovida de percalços que o filme se vê na obrigação de inserir acessoriamente um vilão (Reinier Diaz) para ameaçar os planos de Celeste e um possível par romântico (Omar Franco) para conferir algum tipo de hesitação à trajetória da protagonista.

     

    Isso ocorre porque, fora os personagens coadjuvantes dispostos no caminho de Celeste, sua personalidade é descrita sem aprofundamento. Em flashbacks, descobre-se que esta mulher era vítima de abusos conjugais, desprezada pelo filho, ignorada pela irmã, e possui um trauma específico relacionado à morte do marido. O cineasta filma essas passagens com a mesma simplicidade do anúncio dos extraterrestres na Terra. No entanto, embora seja divertido acatar a presença dos alienígenas de modo banal, não é nada engraçado representar a violência doméstica e a solidão com o mesmo desapego. A atriz Maria Isabel Diaz, no papel principal, encontra um tom muito respeitoso à figura que poderia facilmente soar patética. Existe carinho nos diálogos, certa retidão na postura corporal e uma petulância que impedem a protagonista de se prender à ingenuidade excessiva. No entanto, é a passividade do filme diante desta mulher que incomoda: a única solução para modificar a vida desta mulher é afastá-la da sociedade negligente ou lhe encontrar um novo marido?


     


    Infante certamente se diverte com a construção de figurinos e acessórios em alusão aos alienígenas, a exemplo do bar temático com drinks inspirados nos visitantes, uma aula de língua gry-ok para ajudar a comunicação e um bebê-monstro que se comunica com outras pessoas enquanto ainda se encontra no útero. O diretor fornece uma atmosfera fabular coesa com cores pastéis, uso discreto de música fantasiosa e personagens coadjuvantes levemente estereotipados – o artista gay, a mulher ninfomaníaca etc. A aparência agradável esconde um esforço impressionante para evitar a gravidade das ações. A história não precisaria se transformar em drama, mas poderia equilibrá-lo com o humor ou transparecê-lo metaforicamente ao reforçar a malícia e o absurdo inerentes ao ponto de partida.

     

    Recentemente, o ótimo Breve História do Planeta Verde empregava de modo semelhante a ideia da invasão alienígenas sem alarde, numa produção de recursos igualmente limitados. Naquele caso, a presença do ser estrangeiro servia de espelho à condição marginal dos protagonistas LGBTQI. Para Celeste, a jornada interplanetária serve apenas de fuga à mulher triste, ou ainda um espaço outro em oposição a este. O aceno constante a um mundo mágico que não se concretiza possui seu encanto lúdico, quase infantil, porém a jornada da professora seria muito mais profunda caso o filme se dedicasse a investigar o estado mental de uma pessoa disposta a abrir mão de tudo o que conhece para abraçar um futuro incerto. De que maneira o desejo de abandono reflete os traumas e medos de Celeste, e das outras centenas de candidatos à partida? Em tramas como esta, a viagem é muito mais proveitosa quando utilizada como meio, ao invés de finalidade.

     

    Filme visto no 29º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema, em setembro de 2019.   

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