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    Frans Krajcberg: Manifesto
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Frans Krajcberg: Manifesto

    Ensaio sobre a lucidez

    por Bruno Carmelo

    Dentro de sua casa, Frans Krajcberg comenta com a diretora Regina Jehá que infelizmente não vai a todas as exposições de suas obras. O motivo? Os médicos não o autorizaram, devido aos 95 anos de idade. Mesmo assim, se dependesse dele, o artista viajaria. Este projeto transparece a profunda lucidez artística e política de um homem em fim de vida, mas que mantém seu discurso a favor da ecologia e em defesa de uma arte questionadora, menos comercial. “O meu desejo é a saúde do planeta”, afirma. Em outro momento, completa: “A vida é a natureza”.


    Frans Krajcberg: Manifesto se constrói como um filme-testamento. Falecido em novembro de 2017, o artista relutou em conversar com a diretora, mas aceitou traçar um breve panorama de sua vida, em suas próprias palavras. Apesar do corpo frágil e da fala extremamente debilitada, ele relembra a morte de toda a sua família na Polônia, o exílio no Brasil, a paixão pela Mata Atlântica e pela Amazônia, a dificuldade em preservar a sua arte. O protagonista está presente em todas as cenas, seja com a narração em off, no tempo presente, seja com o farto material de arquivo – a maioria extraído de outros filmes, como Krajcberg - O Poeta dos Vestígios, de Walter Salles. O documentário propõe um diálogo entre o passado e o presente, como se o artista dialogasse consigo mesmo ao longo das décadas, demonstrando uma louvável coerência ideológica.


     


    A direção consegue fugir a algumas armadilhas comuns ao documentário biográfico: primeiro, evita quaisquer passagens sobre a vida afetiva e sentimental do protagonista, segundo, evita endeusá-lo, tratá-lo como pioneiro, melhor que os demais de sua época, e terceiro, não limita o homem a um catálogo de suas obras. Jehá extrai do homem especialmente seus pensamentos, suas ideias, seu ideal de permanência – tanto da natureza quanto de seus trabalhos e, por fim, de si próprio. Existe uma interessante noção de solidez percebida tanto nas árvores que continuam de pé graças aos esforços de Krajcberg, quanto nas esculturas de madeira, grandes e verticais, e no próprio corpo de 95 anos de idade, que parece sobreviver sozinho, deslocando-se pela mata e pela casa onde mora.

     

    Manifesto é prejudicado por alguns aspectos: apesar do prazer em escutar Krajcberg narrar sua própria trajetória, a voz monocórdia do homem idoso imprime um ritmo lento à narrativa, enquanto a narração da própria diretora, em off, soa artificial demais devido a pausas literárias e entonações incomuns à oralidade, o que destoa do despojamento das conversas e da fluidez do filme em geral. Além disso, algumas cenas incomodam bastante, a exemplo do ataque de fúria do artista quando descobre suas obras dispostas numa ordem diferente daquela prevista, dentro da galeria da Bienal. Depois de filmar Krajcberg de perto, em total intimidade, Jehá passa a espiá-lo de longe, como se captasse a cenas às escondidas, sem a autorização dele próprio. Momentos como este ferem a noção de cumplicidade entre os dois artistas.


     


    No entanto, o resultado se sobressai por encontrar uma abordagem original ao escultor, pintor e fotógrafo, servindo como elo entre o homem, suas obras e tantos filmes e documentários elaborados sobre ele. Apresentado em 2018, cerca de um ano após a sua morte, serve como ideal de resistência através da arte, acreditando na sensibilização e conscientização do público sobre os perigos da destruição da natureza e da degradação de si próprio.

     

    Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2018.

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