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    A Rosa Azul de Novalis
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    A Rosa Azul de Novalis

    Quebrando a quarta parede do tabu

    por Renato Furtado
    Na arte, qual é o valor do choque? A pergunta, apesar de curta, encerra uma profundidade imensa. Em seu cerne, a interrogação nos obriga a pensar limites, um conceito de fronteira e de contenção, imposto externamente, que é, via de regra, muito nocivo para uma obra e/ou para seu criador. Há, para além da questão teórica e prática, outras várias dimensões, inclusive de cunho mercadológico, mas o que importa é que o choque serve sempre para perturbar, descentralizar, deslocar e incomodar pressupostos e preconceitos, uma função que o docudrama A Rosa Azul de Novalis desempenha muito bem.

    Dirigido por Gustavo Vinagre (Lembro Mais dos Corvos) e pelo montador Rodrigo Carneiro, o filme desconjunta expectativas desde a sua primeira imagem, provavelmente uma das mais corajosas e inteligentes do cinema recente: um ânus. O de Marcelo Diorio, mais especificamente, biografado que logo assume o controle da narrativa. Através de uma pontual quebra da quarta parede, recurso ficcional que produz ainda mais impacto no registro documental, tido como verdadeiro, o protagonista comanda o olhar da câmera, dos diretores e do público, convidando-nos para um passeio pelo interior de sua mente.

    Como a figura agridoce que é, uma pessoa marcada por abusos extremos na infância e pelo peso da AIDS, Marcelo define a si mesmo da maneira mais tragicômica possível, e pela via dos signos e mapas astrais: "Peixe com ascendente em câncer é como a Dory do Procurando Nemo morrendo de linfoma. A gente chora muito". Desesperadamente dramático, inapelavelmente engraçado e profundamente verborrágico, o protagonista de A Rosa Azul de Novalis parece mesmo ser obra da literatura, um personagem que, ao lado dos cineastas, molda a si mesmo como um instrumento subversivo de questionamento do sistema.

    Ao expor seu corpo para as lentes da sétima arte, particularmente por um ângulo evitado não só pelo cinema, mas pela sociedade como um todo, Marcelo é o perfeito agente do caos e da profanação que não só causa desalinhos, como também reinvindica o ânus — a "rosa azul" do título, inspirada em um elemento místico e transcendental buscado pelo poeta romântico Novalis, uma das vidas passadas de Marcelo — como partícula substancial da potencialidade do corpo do homem gay. Ele é, enfim, símbolo máximo das ressignificações pretendidas pelo docudrama acerca da homossexualidade masculina.

    Por estratégia de alteridade, os homens heterossexuais que surgem nas memórias de Marcelo — trazidas para as telas por Vinagre e Carneiro em um esforço que comprova e explora a nem sempre pacífica coexistência da memória com o presente —, em particular seu pai e seu avô, são personagens "vilanizados". Não porque não são como Marcelo, mas porque foram de fato homens ruins — que, por exemplo, traíram a mãe e a avó do protagonista sistematicamente. Contra os preconceitos escancarados de nossos tempos, A Rosa Azul de Novalis desafia e ataca o imaginário heteronormativo e homofóbico.

    O problema, no entanto, é que o choque é, eventualmente, conduzido com uma mão pesada demais. Enquanto o debate de temas que rodeiam a sexualidade de Marcelo são cruciais, sejam eles de fundo dramático ou anedótico, especialmente na burlesca cena de sexo em que o protagonista quebra novamente a quarta parede com sua tonalidade irônica e sempre reflexiva, o docudrama escorrega para o território do choque pelo choque. A "rosa azul", que anteriormente era a a jornada empreendida pelo longa pela apropriação do ânus, em termos de prazer sexual, acima de tudo, torna-se o exagero e o exibicionismo.

    Para ser relevante, o impacto causado pelas imagens precisa de certa finalidade; precisa de mais do que o impacto em si. O terço final do longa, que esquece por completo a interessante escavação da psique de Marcelo por via de suas lembranças, desliza assim para um registro de profanação simbólica meramente vulgar. A condução despropositada e quase pornográfica prejudica, portanto, a profundidade do longa; se antes uma cena de sexo não só era inovadora, propondo disrupções relevantes, no fim, passa a ser apresentada de modo a ressaltar apenas uma obscenidade contestável, para dizer o mínimo.

    Por colocar o espectador no divã, seja para destruir tabus ou para empoderar os corpos marginalizados, A Rosa Azul de Novalis é corajoso e necessário, sobretudo no atual contexto mundial. Por outro lado, no entanto, o docudrama estabelece preocupações incompatíveis com a sua inicial relevância e transforma o seu protagonista — originalmente um arauto do caso excêntrico, formidável, cativante e deliciosamente subversivo — em um personagem esvaziado e distanciado das relevantes discussões postas em pauta ainda no início da projeção.

    Filme visto na 22ª Mostra de Tiradentes, em janeiro de 2019.
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