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A Lenda de Golem
Críticas AdoroCinema
3,5
Bom
A Lenda de Golem

Os homens e os monstros

por Bruno Carmelo

Certo dia, num vilarejo lituano do século XVII, Hanna (Hani Furstenberg) cria um Golem, criatura da mitologia judaica que esconde poderes sobrenaturais por trás da aparência humana. A premissa invoca uma releitura de Frankenstein, referência assumida pelo filme através das roupas retalhadas do garoto e de sua aparência maquínica – ele não fala nem expressa sentimentos. No entanto, Hanna está longe de ser uma cientista maluca. Ela é apenas uma mãe traumatizada pela morte recente do filho, e transtornada pela pressão social de engravidar novamente. Dentro da comunidade extremamente religiosa onde vive, esta mulher incapaz de dar um filho ao marido é percebida como ingrata, inútil, insuficiente.

 

O aspecto mais interessante de A Lenda de Golem se encontra em sua construção social. Mesmo seguindo os códigos da fantasia de terror, o projeto funciona ainda melhor enquanto drama, opondo o papel das mulheres ao dos homens, dos religiosos ao dos gentios, dos mais velhos ao dos jovens. Hani Furstenberg e Ishai Golan, intérprete do marido, conferem ao projeto um estofo dramático muito superior à média das produções de gênero que chegam aos cinemas comerciais. Ao descrever o calvário desta mulher oprimida, porém dotada de desejo de conhecimento e de liberdade, o espectador pode compreender as motivações que levam a protagonista a invocar o monstro.


 


Os diretores Doron PazYoav Paz compreendem um elemento fundamental sobre o terror: o público só pode realmente temer e torcer pelos personagens se estes forem tridimensionais, complexos, ao invés de meras carnes esperando pelo abate. Sem a construção plausível das vítimas, ficamos presos no fetiche da violência nos moldes de Jogos Mortais e O Albergue. Além disso, neste filme israelense, os maniqueísmos são atenuados: o marido, apesar de conservador, está longe de representar um tirano, e mesmo o invasor que chega às terras age de maneira agressiva por pura ignorância científica (ele acredita que os judeus, com seus “feitiços”, estão causando a doença de sua filha).

 

É muito interessante que o projeto consiga embutir, no que poderia ser uma simples exposição de uma criatura perseguindo inocentes, um debate sobre a busca pelo conhecimento e a quantidade de guerras motivadas pela ignorância e falta de empatia. Quando o Golem de fato executa todas as maldades anunciadas pela premissa, o filme faz questão de equipará-las com as violências humanas: afinal, quem seria mais monstruoso numa guerra? A criança sanguinária ou os camponeses que se matam diariamente? Quem é o verdadeiro monstro, neste contexto?

 

O Golem, em si, revela-se um personagem bastante complexo. Mesmo com aparência de criança, possui força superior à de muitos adultos. Criado para ser um protetor, ele também pode se tornar agressor. Apesar de ser aparentemente controlável, porque corresponde à criação da mãe Hanna, logo foge às ordens desta. O público é situado diante de um enigma: de que lado, afinal, está a criatura? Seu comportamento errático, retira a motivação maligna para aproximá-lo de uma fera, uma entidade animalesca agindo sem propósito definido. Ele representa, afinal, o ápice da “falta de conhecimento” destes seres humanos brutos e mesquinhos. O Golem nada mais é do que um exagero das qualidades e dos defeitos humanos, ao limite do grotesco.


 


Felizmente, os cineastas jamais mostram o garotinho atacando inimigos com as próprias mãos: os ataques são sugeridos em rápidos flashes e cortes de montagem, enquanto o garoto mantém a aparência inalterada. Pela aproximação entre sua figura e os ataques, associamos um ao outro, algo que certamente soa muito mais plausível do que transformar a criança numa máquina mortal como proposto em Cemitério Maldito, por exemplo. No entanto, a irrupção da violência exagera nos litros de sangue e cabeças explodindo – uma decisão que certamente produz maior impacto devido ao aspecto naturalista da trama, porém soa exagerada ao limite do cômico. Os diretores retêm o suspense durante tanto tempo que, na hora de entregar os prazeres do cinema de gênero, veem-se na obrigação de sobrecarregar os ataques.

 

Mesmo assim, cabe ressaltar o mérito de apresentar o garoto aos poucos: primeiro por um túmulo vazio, depois por sombras, em seguida por partes da mão até ele de fato se aproximar de uma criança comum. A Lenda de Golem demonstra evidente preocupação com o ritmo narrativo e a construção das imagens, bem iluminadas e enquadradas em formato scope, de modo a ressaltar a inferioridade de Hanna diante da comunidade ao redor. O discurso se sai muito melhor quando trabalha na chave da sugestão (a bela cena das roupas no varal, o banho do garoto na banheira) do que quando efetivamente incendeia o vilarejo.

 

Por fim, o desenvolvimento narrativo intricado quase nos faz esquecer do fraco terço inicial, com um flashback particularmente mal dirigido sobre as origens do Golem e uma narração didática, acompanhada de diálogos explicativos. Passada a introdução desengonçada, o espectador descobre menos um cautionary tale (um alerta ao espectador sobre os perigos de “brincar de Deus”) do que uma fábula de sacrifício feminino, sobre uma mãe, esposa e mulher buscando driblar as opressoras regras sociais sem precisar se exilar da comunidade que ama. Esta é menos a história da criança monstruosa do que da “mãe monstruosa”, que um dia se rebela contra os homens dominadores.

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