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    Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu

    Contatos imediatos

    por Barbara Demerov
    Cinema observador: do tempo, das pessoas e das emoções que podem passar despercebidas para alguns no dia a dia. É desta forma que o diretor Bruno Risas escolhe documentar a própria família, que reside no bairro Bresser, em São Paulo. Para os paulistas que assistem a Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu, especialmente aqueles que também residem na região da Mooca, uma sensação familiar ecoa em todos os planos externos que passeiam pelas ruas próximas ao metrô, às vilas residenciais e aos prédios que outrora eram fábricas.

    Mas é claro que a sensação familiar torna-se universal na retratação de uma família brasileira de classe média. O pai, a mãe, a irmã e o irmão (o diretor do filme, que pouco aparece frente às câmeras) são pessoas reais, com problemas tão cotidianos quanto reais. O desemprego e o dia a dia no cuidado com a casa, por exemplo, são elementos realísticos que se chocam com a ficção empregada por Risas. Ao mesmo tempo em que o espectador acompanha o silêncio dentro daquela casa, a ficção entra de forma sorrateira através da contemplação ao céu.



    Entre a inclusão de cenas em que a família do diretor conversa com ele durante as gravações, a avó materna o pergunta se a câmera está filmando algo e a mãe de Bruno desabafa e segura as lágrimas em um momento emocionante, Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu insere aos poucos o sentido ficcional através da própria mãe, a personagem mais abordada ao longo do filme. Sua vida em casa, que não lhe proporciona muito descanso e, ao mesmo tempo, traz certa melancolia, é a fonte principal dos conflitos e da atenção do diretor.

    Por mais que não trabalhe com mais profundidade as questões internas dos personagens (talvez por eles serem tão próximos e este filme ser, em essência, sobre a própria vida do diretor), o filme entrega, através deles mesmos e desta privacidade "invadida", uma atmosfera convidativa e ao mesmo tempo misteriosa. Porém, o modo como Risas registra os detalhes cotidianos da própria família faz com que ele mesmo seja um observador de todas as situações - quando, na verdade, ele também é o propulsor delas.

    O fato de Risas não estar frente às câmeras em todos os momentos chama a atenção, pois ao mesmo tempo em que ele é quem observa a tudo e a todos, também está diretamente ligado a toda a proposta pelo lado pessoal. Ou seja: se enquanto diretor o ideal é obter certa distância, isso não é completamente possível por conta da ligação inegável que possui com a família. Mas, no todo, Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu é um interessante exercício de observação e até mesmo de transformação, visto que o cinema, aqui, mostra-se uma poderosa ferramenta de comunicação familiar.
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    Comentários

    • Walmir Araujo
      Também não entendi a proposta do diretor com a abdução, como alegoria não vi relação com o restante da história, que no geral achei bem interessante. Viajei nas memórias da minha adolescência em Sampa.
    • Aristeu Adão Duarte
      Muito interessante o filme. Ainda não conhecia uma proposta assim, tão inovadora e corajosa. Só me ficou uma dúvida que gostaria que alguém me clareasse ou mesmo um enfoque que não consegui captar: o momento crucial que a mãe, em pé no centro da ponte olha as águas lá embaixo e aponta para o céu onde aparece a nave que vai crescendo, crescendo, mas não há nenhum registro da câmera do diretor - mesmo que fantástico - da sua abdução... Além disso, o relato da mãe dizendo que o outro mundo é igual a este foi muito simples, sem nenhuma importância. Poderia ter sido melhor trabalhada a solidão da mãe, por exemplo, nos momentos em que ela fumava com prazer...
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