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It Must Be Heaven
Críticas AdoroCinema
4,5
Ótimo
It Must Be Heaven

O palestino pelo mundo

por Bruno Carmelo

Na sala de espera de uma grande produtora norte-americana, o cineasta Elia Suleiman (interpretando a si mesmo) é apresentado à mulher apressada: “Ele está fazendo um filme sobre a paz no Oriente Médio, mas é uma comédia”. Ela responde: “Sim, isso já é engraçado por si só”. Suleiman sai do local sem qualquer promessa de financiamento. “Boa sorte com o seu projetp”, finaliza a mulher, em falso tom de cordialidade. Instantes tragicômicos como este se multiplicam ao longo de It Must Be Heaven, comédia sobre as dificuldades sociais na Palestina e a impressão de superioridade dos países ricos (França e Estados Unidos, no caso) em relação ao mundo árabe.

 

Em suas últimas ficções, o cineasta tem investido neste tipo muito específico de humor que provém unicamente da construção da imagem e de gags visuais, sem o apoio de diálogos nem explicações de qualquer tipo. Ele propõe esquetes que se colam de maneira livre, até formar um panorama político do tema em questão – numa clara herança de Buster Keaton e Jacques Tati, e em diálogo direto com as ironias visuais dos contemporâneos Roy Andersson e Aki Kaurismaki, por exemplo. As cenas podem soar tão lúdicas quanto violentas, dependendo da interpretação. De qualquer maneira, não há espaço para ingenuidade no roteiro que propõe a viagem de um palestino a Paris e Nova York, apenas para perceber que estes lugares supostamente desenvolvidos possuem problemas sociais tão graves quantos os de sua terra natal.


 


Talvez fosse muito mais fácil discutir a questão da imigração através de comunidades magrebinas em Paris, porém It Must Be Heaven opta pela maravilhosa metáfora do protagonista brigando com um passarinho que invade o seu apartamento. Em outro momento, a vitrine de uma loja ostenta o vídeo em looping de modelos brancas e lindas desfilando por uma passarela, enquanto a faxineira negra organiza a sala. A inteligência deste humor consiste em trazer o discurso político à linguagem cinematográfica, no caso, aos enquadramentos perfeitamente simétricos, ao som, ao estranho formato de tela mais retangular do que o scope. O senso de artificialidade contribui ao criar o humor pela via do estranhamento: vide o exemplo dos policiais patéticos comparando os óculos de sol, até o espectador perceber, no banco de trás, uma mulher amordaçada.

 

Aos norte-americanos e franceses (ou europeus em geral), a experiência se revela crítica à maneira como ambas as sociedades são organizadas, mas também pelo fetiche destas nações em relação aos palestinos. As perturbadoras cenas de tanques e helicópteros invadindo Paris, ou então as famílias americanas fazendo compras no supermercado com suas armas presas ao corpo revelam uma sociedade doentia, paranoica, desumanizada. Suleiman investe numa voluntária caricatura na intenção de explicitar traços que os estrangeiros (ao olhar palestino) não gostam de enxergar sobre si mesmos. Deste modo, coloca o dedo em feridas importantes, porém de maneira leve, descompromissada, como uma brincadeira. Talvez o discurso político se torne ainda mais forte devido graças à escolha de representar uma ideia ao invés de contá-la ou demonstrá-la. Além disso, o cineasta confia na inteligência de seu espectador para compreender metáforas, sem precisar recorrer ao didatismo.


 


Em determinada parte da trama, Suleiman observa a fachada de um comércio intitulado “L’humaine comédie”, a comédia humana. Esta poderia ser uma bela descrição do filme como um todo, que se abre e se encerra com as suas duas melhores cenas. No início, traz a imagem de uma encenação religiosa sobre a paz, que se vê involuntariamente obrigada a introduzir a violência. No final, demonstra o orgulho palestino misturado ao sonho de mudanças, através das belíssimas imagens de uma mulher retirando o véu dos cabelos, no campo, e de jovens progressistas bebendo, cantando e dançando numa festa noturna, na cidade, incluindo o encontro entre dois rapazes gays. Suleiman não pretende fugir da Palestina, apenas sonha que ela se desenvolva – e indica, na simplicidade de suas imagens mudas, o futuro que desejaria para o seu povo.

 

Filme visto no 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio de 2019.

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