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    Deslembro
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Deslembro

    As veias abertas do Brasil

    por Bruno Carmelo

    A adolescente Joana (Jeanne Boudier) enfrenta a fase mais turbulenta de sua vida. Para além das inseguranças típicas da puberdade, a garota franco-brasileira está se mudando para o Rio de Janeiro, terra que só conheceu quando era muito pequena, e ainda carrega o trauma de não conviver com o pai. Sem poder efetuar o luto comum aos órfãos, ela se questiona sobre o que significa ser um “desaparecido político”, e de que maneira a ditadura militar operou no Brasil. Joana não deseja voltar para este país estranho que “mata e tortura” as pessoas. Para a protagonista, esta é a nação que lhe roubou o pai.


    Primeiro longa-metragem de ficção de Flávia Castro, Deslembro desenvolve este amadurecimento não apenas em relação à vida adulta, mas também à política e sociedade. Enquanto experimenta maconha e sexo, Joana também aprende como era o Brasil na época de torturas, perseguições a militantes e exílio de artistas. Bela e simples ideia desta fábula na qual a perda da inocência significa se confrontar com as feridas abertas da família e do país. O projeto articula de modo bastante natural o privado e o público, a família e a nação. Ao mesmo tempo, traça os contornos de uma família progressista onde se conversa em francês, português e espanhol, enquanto as crianças possuem grande autonomia, em função do investimento dos pais na luta política.


     


    Os melhores momentos do drama provêm das cenas despretensiosas em que Joana aproveita a praia, cuida dos irmãos pequenos, caminha pelas ruas do Rio de Janeiro. O roteiro torna-se mais profundo quanto não busca explicar o contexto em demasia. Os momentos entre Joana (uma promissora Boudier) e a avó extrovertida (Eliane Giardini, excelente) são divertidas e hilárias ao mesmo tempo. Além disso, Castro consegue extrair belos instantes da descoberta da adolescente em relação à música brasileira, com destaque para uma melodia apreciada sob o chuveiro e um terno dueto da garota com o namorado Ernesto. A cineasta também aposta numa poesia singela, analógica, que funciona por sua humildade: a textura da pele é comparada com a areia da praia, as gotas da chuva deslizam sobre o vidro do carro.

     

    Em contrapartida, algumas escolhas enfraquecem o resultado. Determinadas explicações sobre a ditadura no Brasil soam didáticas demais, e o roteiro depende demais dos diálogos para avançar. Em determinados momentos, a câmera na mão treme em excesso, em outros momentos, limita-se a planos de conjunto bem fechados e frontais, um tanto pobres em termos de dinâmica e exploração do espaço. As luzes em interiores poderiam ganhar maior volume e elaboração, e uma personagem central na trama, a mãe de Joana (interpretada por Sara Antunes) carece de aprofundamento, por ser provavelmente a personagem enfrentando os maiores conflitos morais de toda a narrativa.


     


    Mesmo assim, entre cenas construídas demais e outras deficientes, o saldo de Deslembro é inegavelmente positivo. A cineasta se destaca por privilegiar o ponto de vista de Joana, sem apostar numa família caricatural da esquerda. A passagem à fase adulta equilibra a doçura das primeiras vezes com o amargor dos traumas da nossa história. Apostando num realismo poético em certa afinidade com o trabalho de Laís Bodanzky ou Lúcia Murat, Castro demonstra um potencial notável como diretora de ficções, demonstrando sensibilidade para temas complexos e boa preparação no trato com atores mirins. Que venham os próximos filmes.

     

    Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2018.

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