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    Tsé
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Tsé

    Todas as vozes da avó

    por Bruno Carmelo

    O início deste documentário produz certo receio: após uma rápida narração com a voz de Tsecha Szpigel, o diretor Fábio Kow explica ser neto da protagonista, narrando então sua admiração pelos avós desde a infância. A sinceridade e o carinho são inegáveis, refletindo tanto o acesso irrestrito à vida da judia polonesa quanto a impressão de franqueza – uma vez que, devido à proximidade familiar, todos os assuntos podem ser abordados sem tabus. Mesmo assim, resta o temor de nos encontrar diante de mais um filme-homenagem do neto à avó (ou da filha ao pai, da filha ao tio etc.), subgênero que se proliferou na cinematografia brasileira recente, tanto pela facilidade de produção quanto pela vontade de jovens cineastas de, em última instância, jogarem luz sobre si mesmos. Afinal, quando se fala de sua família, em primeira pessoa, colocando fotos pessoais da infância, o autor não deixa de traçar uma autobiografia.

     

    Tsé segue a linha dos retratos tão afetuosos quanto ensimesmados. Diante dos vídeos familiares, feito por parentes e para parentes, pode-se questionar a posição do espectador: por que a equipe teria julgado importante contar ao mundo a história de Tsé? Ela seria um exemplo das atrocidades vividas por todos os judeus durante a Segunda Guerra Mundial? Um caso particular de adaptação cultural, de emancipação feminina? Ou apenas uma senhora amada por seus próximos? Em outras palavras, o filme é feito para um observador de fora, ou o público-alvo seriam os próprios familiares – caso em que o espectador é colocado na posição de voyeur, como se folheasse o álbum de retratos alheio? A posição se torna ainda mais delicada pela escolha dos depoimentos: o cineasta entrevista apenas seus primos, pais e tios. Pela ausência de vozes externas (historiadores, sociólogos etc.), o projeto reforça a impressão de um discurso mais pessoal do que propriamente questionador ou reflexivo.


     


    A escolha dos netos e bisnetos de Tsé pode parecer óbvia, mas produz um ruído considerável na narrativa. Isso ocorre porque estas pessoas não discorrem sobre suas experiências com a protagonista enquanto netos, com suas anedotas pessoais, por exemplo. Os entrevistados falam por Tsé, em nome dela. Os jovens familiares explicam as situações vividas por Tsecha Szpigel na Europa quando criança, a fuga dos campos de concentração, o encontro com o marido. As descrições fatuais despertam atenção não apenas por fragmentarem o ponto de vista da biografada, mas pelo fato de que esta estava disponível para fornecer os detalhes por conta própria. Os depoimentos ora se repetem, ora se completam. Enquanto isso, a montagem faz questão de aproximar as imagens por temas: quando a personagem fala sobre a experiência em Sobibor, por exemplo, algum neto explica o que ela passou em Sobibor, e assim por diante.

     

    As falas de Tsé se tornam ainda mais curiosas porque, em se tratando do material mais importante do filme, ele é registrado com uma negligência estética incompreensível. Mesmo tendo a personagem sentada numa sala fechada, onde poderia ter pleno controle de som e luz, o diretor capta as falas da avó através de uma câmera tremida, com a textura da imagem amadora e um registro de som talvez proveniente do próprio aparelho de captação – vide o volume da fala de Kow, sempre mais alto que o de Tsé. Os demais depoimentos são elaborados com os parentes posicionados no centro exato da imagem, em frente a uma parede, com pouco cuidado na luz e na captação de som. O aspecto da imagem é ainda mais prejudicado pela justaposição com trechos de filmes clássicos dos anos 1940 e belas fotografias profissionais.


     


    O diretor emprega uma quantidade notável de recursos para preencher sua narrativa e suprir a falta de materiais de arquivo: além das cenas de outros filmes, ele inclui letreiros transcrevendo sons, letreiros familiares falecidos, datas sobrepostas ora a imagens da época, ora a cenas de textura digital, trechos de Fred Astaire dançando ao som de música brasileira e mesmo uma bela animação – o melhor e mais lúdico dos recursos – capaz de trazer algum tipo de respiro à literalidade dos depoimentos. A montagem pena para encontrar uma harmonia entre tantos estilos e materiais, mas consegue, pelo menos, destacar a importância daquela avó dentro da família, e sua excepcionalidade enquanto sobrevivente da guerra. É uma pena que falas sobre o “lugar onde Tsé foi muito feliz” e sobre sua vontade de viver provenham de terceiros, e não da própria mulher.

     

    Ao se transformar em personagem, o diretor inclusive justifica ao espectador a decisão de viajar à Europa, descrevendo em quantas diárias filmou o documentário, num misto curioso do filme e do making of. Nesta proliferação de vozes e pontos de vista, o projeto perde a força da fala de uma mulher que, por si própria, carrega um peso muito importante nas palavras e na memória. Havia diversas maneiras cinematográficas de representar a dor daquela avó e sua trajetória de sobrevivência sem recorrer a pessoas que simplesmente descrevem os fatos, de maneira linear. Mas pelo caráter íntimo e pelo afeto evidente entre todos os membros dessa família, o documentário pode despertar fácil identificação com o público, especialmente para os espectadores descendentes de imigrantes.
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