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    O Fantástico Patinho Feio
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    O Fantástico Patinho Feio

    Esses homens e suas máquinas maravilhosas

    por Bruno Carmelo

    O diretor Denilson Félix introduz o filme dizendo ter ficado extasiado com o fato de uma história tão excepcional não ter chegado ao cinema antes. É curiosa a ideia de que a arte tem como vocação retratar o extraordinário, ao invés do comum, e de que alguns fatos “merecem virar cinema” mais do que outros. Seduzido pela trajetória do azarão que, contra todas as expectativas, supera concorrentes muito mais qualificados - uma estrutura típica das ficções, diga-se de passagem - o cineasta propõe um documentário sobre o grupo de adolescentes que construiu um carro de corrida sozinhos, com pouco conhecimento e quase nenhuma estrutura, chegando ao segundo lugar da corrida de 500km de Brasília, nos anos 1960.


    Os melhores momentos de O Fantástico Patinho Feio se encontram na apresentação da época, quando o roteiro permite compreender de que maneira a formação de Brasília incentivou o automobilismo dentro de um país voltado ao futebol. A geografia, a história e a cultura brasileira são analisadas de modo orgânico para justificar como essas corridas ocorreram, e de que modo o sonho de construir um carro foi concretizado por quatro amigos. O filme também se sobressai enquanto buddy movie, retrato das estripulias de garotos talentosos cuja ousadia se comprovou frutífera.



    É uma pena, no entanto, que os senhores idosos de hoje quase nunca sejam vistos juntos. Cada um em um espaço diferente, eles contam a mesma história, que a montagem faz questão de intercalar de modo a ressaltar a semelhança das versões, como sinal de prova da veracidade do relato. A montagem, aliás, interrompe as falas abruptamente e aposta numa linearidade pouco instigante dos fatos, o que termina por espelhar outras deficiências técnicas no projeto. A fotografia oferece uma iluminação de pouco contraste e imagens com cores lavadas; o som direto, eficiente na maior parte do tempo, oscila em algumas entrevistas; o boom invade o quadro e faz sombra sobre os protagonistas, enquanto a equipe aparece refletida nos óculos de um entrevistado.


    Estes detalhes são pequenos perto de fragilidades narrativas mais graves: primeiro, o aspecto puramente descritivo, que alinha falas unívocas e redundantes, sem procurar eventuais dissonâncias, lacunas, ou metáforas imagéticas para representar o fato narrado. Segundo, a tendência à espetacularização, a exemplo da música rock no início, e sentimental no fim, ou ainda a narração repleta de frases de efeito sobre superação, entoadas pelo próprio diretor. Terceiro, a incapacidade de inserir este caso excepcional numa estrutura mais ampla: o filme não se aprofunda na fase de industrialização, tampouco disseca a importância da corrida como fenômeno social ou econômico.



    Além disso, não existe distanciamento para investigar a configuração deste universo puramente masculino: enquanto os homens falam, uma única mulher é entrevistada, ao lado do marido, e as menções às figuras femininas dizem respeito apenas às mães dos entrevistados, que cediam o espaço para a oficina apesar da “sujeira de graxa”, dando a entender que cabia a elas a tarefa da limpeza. O Fantástico Patinho Feio não traz apenas uma passagem sobre o automobilismo nacional, mas também um símbolo do imaginário de virilidade associada aos automóveis, com suas inúmeras peças e procedimentos mecânicos fartamente descritos no filme.


    Mas a direção está empolgada demais com a vitória, comemorando a proeza de uma “juventude sadia e empreendedora”, como afirma um deles, para questionar o ponto de vista dos garotos em comparação ao de outros: de que maneira reagiu o vencedor da corrida? De que maneira a condição social dos jovens mecânicos permitiu a construção do carro? O que mudou na profissionalização do esporte desde então? Um novo Patinho Feio seria possível hoje? Estas perguntas fundamentais permanecem sem resposta. O episódio fica preso em seu tempo, em meio à estrutura rígida dos talking heads, sem encontrar ecos políticos e econômicos com os dias de hoje.

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