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A Redenção
Críticas AdoroCinema
2,5
Regular
A Redenção

Cicatrizes da guerra

por

É preciso ser muito corajoso, ou talvez muito ingênuo, para produzir um épico de guerra de baixo orçamento. O paraguaio A Redenção é um pouco dos dois: ao mesmo tempo, ingênuo por acreditar na capacidade de reproduzir grandes campos de batalha, figurinos e cenários dos anos 1930 sem recursos, e corajoso por não apenas se lançar na empreitada, mas também costurar um roteiro que pula do presente ao passado, da guerra ao road movie e, por fim, o feel good movie.


O diretor Hérib Godoy elabora um discurso claro através de sua fábula: as guerras extraem o pior dos seres humanos, destroem amizades e famílias, deixando feridas que nunca cicatrizam plenamente. Por isso, é preciso valorizar a bravura e honra dos nossos soldados, que se sacrificaram em batalhas perigosas. A Redenção oferece uma curiosa mistura de discurso pacifista (o que vale é dar as mãos, superar as diferenças, conviver com o inimigo) e orgulho patriótico (o olhar afetuoso a tantos homens que morreram e mataram em nome de um Paraguai livre). Talvez por esta indefinição fundamental, o resultado carregue um gosto indigesto.


 


A direção efetua escolhas curiosas: através de uma imagem de baixo contraste, com pálidas cores pastéis (o oposto da tradicional estética da guerra), Godoy encarrega atores pouco desenvoltos de proferirem frases grandiosas sobre a natureza humana e a importância das lutas sociais. Como resultado, obtém um teor engessado, que se acentua devido às motivações fracas (a neta que precisa encontrar o avô, de um dia para o outro, a ponto de suspender sua vida por isso) e à mise en scène tradicional com muitos planos e contraplanos, além de enquadramentos fechados num objeto que se tornará importante logo em seguida – por exemplo, a imagem focando numa carta que será lida pelo personagem na imagem seguinte.

 

Mesmo assim, a narrativa consegue extrair bons momentos de interação humana quando suspense sua solenidade e autoimportância. As provocações entre Marlene (Lali González) e o soldado aposentado José (Juan Carlos Notari) funcionam bem, assim como a eventual aproximação entre o “burguês” José e seu colega comunista no passado, quando lutaram juntos. As cenas em que militares compartilham memórias ou dividem refeições impregnam a narrativa de um humanismo palpável, sem a responsabilidade opressora de representar toda uma nação. Os personagens se tornam mais universais à medida que ganham especificidades.


 


Como de costume em projetos destinados ao grande público, A Redenção passa a sua conclusão se explicando, transformando as mensagens claras em ensinamentos ainda mais explícitos. Assim, garante a compreensão de todos, mesmo que sugira no processo que o espectador não tenha condições de chegar às conclusões por conta própria. O melodrama se acentua, as doenças entram em cena, os segredos do passado são revelados. A comparação entre cinema e telenovela costuma ser uma ferramenta depreciativa e um pouco fácil da parte dos críticos de cinema, mas neste caso, o melodrama televisivo se torna uma referência evidente pela divisão em núcleos, pelo apelo à emoção e pela intenção de transmitir uma doce lição de vida ao público. Assim, deve dialogar com espectadores que apreciam o formato bem intencionado ,porém menos provocador como ponto de vista e projeto artístico.

 

Filme visto no 13º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, em julho de 2018.

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