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    O Avental Rosa
    Críticas AdoroCinema
    1,0
    Muito ruim
    O Avental Rosa

    Alice no país das manipulações

    por Taiani Mendes

    Alice (Cyria Coentro) trabalha como acompanhante em hospitais, mora numa vila à moda antiga, é viúva, tem uma irmã mais velha (Tania Bondezan) e todos os dias toma café da manhã no armazém do Seu Américo (Cesar Troncoso). Não deve nada a ninguém, mas todos acham que podem julgar sua rotina. Ela reage, grita, não aceita. E depois acata. Caracterizada por tomar conta de doentes à beira da morte, é como se a personagem definhasse diante dos olhos do público em O Avental Rosa, dramalhão que crê narrar o renascimento desta mulher, quando em verdade a destrói. Uma mulher feliz com o que faz, que resiste diariamente à pentelhação dos mais próximos implicando com os rumos de sua vida e por fim cai diante de mansplaining embrulhado nas "melhores intenções do mundo".

    Incomodada com a solidão, Alice se anima com um novo paciente, Rafael (Bruno Cabrerizo), e o filme de Jayme Monjardim investe firme na tensão sexual dos dois - ainda que ele seja homossexual e ela até então uma profissional bem séria no ambiente de trabalho. As tardes que deveriam ser de acompanhamento transformam-se em sessões quase que de hipnose em que o Rafael "faz o favor" de diagnosticar os problemas da vida pessoal de Alice, afirmar que ela é bonita e indicá-la tratamentos de beleza. Uma mistura pedante de Dr. Sabe Tudo com o gay melhor amigo, Rafa fala enquanto Alice absorve com olhos de coração e sorriso nos lábios, como se tivesse passado toda a existência esperando um homem bonito lhe despertar a autoestima, o Príncipe que beija e faz despertar a Princesa nos contos de fada.


    Monjardim busca expressar naturalidade por meio de pessoas usando o vaso sanitário e cenas da protagonista nua ou de calcinha dentro de casa, mas a intimidade é totalmente forçada e a exposição do corpo de Alice, justificável num contexto de sedução do vizinho que observa tudo pela janela, revela-se de gosto duvidoso conforme se repete. Especialmente lamentável é o momento em que seu reencontro com a própria beleza é filmado como um comercial de hidratante, com gestos milimetricamente calculados diante do espelho, taça de álcool na mão, passeio por diversos cômodos, música de climinha e iluminação de casa de campo na Itália. Até a masturbação é transformada em espetáculo para os espectadores.

    Mariana Catalane

    Apesar de supostamente se engajar na abertura da acompanhante para o amor, O Avental Rosa nega à personagem o desenvolvimento típico de histórias do tipo, prendendo-a num rodamoinho de sofrimento que parece até punição pela forma desleixada como ela passa a se comportar no ofício: acordando paciente sem motivo, destratando idosa moribunda e facilitando show de transformistas em quarto de hospital - ao que tudo indica é impossível, aos olhos do cineasta, ter um personagem gay e não colocá-lo numa festa com maquiagem, salto alto e transgressão festiva.


    A montagem vai piorando conforme o filme avança, e na reta final é como se os envolvidos nem mais soubessem como indicar a passagem do tempo sem ser com mudança de roupa e fade out. Todo mundo está sempre se olhando no olho, o que é perturbador, e aquele conhecido zoom in dramático avisa quando as lágrimas estão chegando. Há flashback para ajudar quem por acaso esqueceu a cena que acabou de acabar e o humor é tão estranho que o melhor momento é uma referência solta à Karatê Kid.


    É uma maravilha que Cyria Coentro interprete a protagonista de um longa-metragem e uma pena que seja esta Alice, condenada a uma jornada aviltante de satisfação do desejo dos outros a respeito de sua própria vida.


    Filme visto no 46º Festival de Gramado, em agosto de 2018.

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