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Brexit
Críticas AdoroCinema
3,5
Bom
Brexit

O jogo sujo da nova política

por

“Todo mundo sabe o que aconteceu, mas quase ninguém sabe como isso aconteceu”. Ao abordar a saída do Reino Unido da União Europeia, esse projeto corria um grande risco. Por tratar de um tema recente demais, poderia insistir em fatos bem presentes na memória do espectador. Por analisar um tema em andamento, poderia soar datado, ou mesmo ultrapassado, dentro de pouco tempo. Por estes fatores, o diretor Toby Haynes e sua equipe se focam não nos fatos, mas na configuração da nova política baseada em notícias falsas, acusações absurdas e o apelo constante aos medos e ódios do cidadão. O "Brexit" torna-se o exemplo de um mecanismo político praticado no mundo inteiro - razão pela qual é tão fácil se identificar com a narrativa.


Além disso, o filme adota um estilo muito particular: com a câmera tremendo nervosamente de um lado para o outro, luz natural e dinamismo baseado na velocidade dos diálogos, Brexit assemelha-se aos mockumentaries, ou seja, falsos documentários cômicos que têm se tornado a principal ferramenta para abordar a política na televisão sem soar partidário ou agressivo demais (vide Veep, Parks and Recreation, The Office, Newsroom). O humor permite não apenas a leveza do conjunto, mas também o distanciamento necessário para abraçar ambos os lados, percebendo as proezas e falhas de cada um. O resultado é bastante crítico em relação às táticas utilizadas pelo grupo vencedor, mas não deixa de reconhecer a astúcia destas pessoas.




Basicamente, de acordo com a cartilha apresentada, acusa-se o adversário da mesma acusação recebida, lança-se números fictícios e especulações absurdas para desviar a atenção dos problemas reais, e principalmente utiliza-se todas as ferramentas possíveis das redes sociais para dizer exatamente aquilo que o interlocutor pretende ouvir. O filme é muito bem-sucedido no retrato do esvaziamento ideológico em meio a um debate decisivo para o futuro da Europa. Não se questiona se a imigração é realmente um perigo, ou se a economia será de fato prejudicada pela saída do Reino Unido. Se os votantes querem escutar que se trata de perigos reais, é isso que será repetido exaustivamente. As ficções são tratadas como fatos e, pior ainda, terminam por substitui-los.


Benedict Cumberbatch interpreta Dominic Cummings, o cabeça desta estratégia política, com uma complexidade notável. Tratado como uma espécie de “gênio louco” pela narrativa, ele alterna momentos de euforia com outros de silêncio e observação. O ator sabe criar um sujeito enigmático, imprevisível, capaz de dar nova roupagem ao conservadorismo sem que se descubra o que ele pensa ao certo. Munido de estratégias de guerra, ele pensa unicamente na melhor maneira de vencer o adversário. Ele é um profissional, um “gestor”, ao invés do político ou do militante.


Toby Haynes faz um bom trabalho ao ressaltar essas contradições: na mesma reunião em que o protagonista aparenta estar em controle, uma imagem próxima da nuca mostra o suor farto de medo e ansiedade; depois de um discurso em total confiança, ele chega em casa, desaba na cama e se pergunta: “Por que as pessoas não gostam de mim?”. O grande mérito de Brexit é enxergar que toda a campanha, assim como as pessoas por trás dela, constituem imagens, aparências. São tantas camadas de frases de efeito, discursos posados e gritos de guerra que fica difícil descobrir, ao fundo, suas reais identidades.




Exceto pela bela construção de personagens, o restante obedece à cartilha simples da câmera acompanhando personagens no entra e sai de escritórios e reuniões, com planos de conjunto meramente funcionais. A montagem trata de fragmentar as conversas e fazer idas e vindas no tempo, buscando reforçar o absurdo das situações. No entanto, a estética possui pouca ambição de transmitir o seu ponto de vista através da forma ou das composições: o debate de ideias concentra-se quase exclusivamente nas violentas trocas verbais entre Dominic e os assessores, ministros ou adversários.


No terço final, a farsa é abandonada em prol de um drama mais convencional. Brexit perde então a sua força e revela as limitações do formato televisivo - o aguardado confronto entre Dominic e Craig (Rory Kinnear) se mostra anticlimático. O filme maneja muito bem a insanidade do marketing político, a histeria coletiva e a utilização do medo como capital eleitoral. No entanto, quando tenta humanizar este circo de horrores, atinge um didatismo pouco estimulante. Mesmo assim, pela impressionante complexidade política embutida em modestos 90 minutos, com atuações potentes e nada caricaturais de personagens importantes deste episódio (vide Richard Goulding como Boris Johnson), o resultado é uma sátira política dotada de farto material de reflexão para além da constatação dos fatos.

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