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Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos
Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos

As curas do corpo e da alma

por

Aos pés de uma cachoeira, Ihjãc Krahô se senta e começa a lamentar a ausência do pai morto. Para a sua surpresa, o pai responde. A voz diz ao jovem para organizar uma festa de fim de luto, permitindo que a alma siga o seu caminho e que os vivos prossigam com a sua rotina. Um instante depois, a calmaria local é tomada pela presença de uma chama, um fogo em plena água. Esta é apenas uma das imagens surpreendentes do drama Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos.


Os diretores Renée Nader MessoraJoão Salaviza concebem uma série de cenas deslumbrantes. Trabalhando dentro de uma minúscula estrutura de produção, com uma câmera 16mm em mãos, eles fornecem enquadramentos ricamente compostos, ora inserindo os personagens em um espaço amplo, representando a dimensão do território indígena Pedra Branca, ora focando nos rostos e nos detalhes, como a presença essencial de uma ave cujos rumos ditam a narrativa. Os cineastas sabem muito bem onde devem se posicionar para obter o efeito mais expressivo e, ao mesmo tempo, mais discreto.


 


A belíssima fotografia trabalha as características naturais das luzes baixas, enquanto o som se encarrega de representar diálogos com vozes over, fora do enquadramento. Quando Ihjãc conversa com a funcionária branca de um hospital, por exemplo, a presença dela nas imagens é dispensável - o enquadramento permanece, portanto, no índio. No caso, o projeto se dedica a dar protagonismo a estes indivíduos e suas crenças. Eles buscam toda forma de tranquilidade do corpo e do espírito, tanto com a ajuda de xamãs quanto da medicina dos brancos. O projeto mostra o contato habitual entre brancos e índios na região do Tocantins, onde ambos conhecem bem os costumes alheios, sem abandonar os seus próprios.

 

Para quem está acostumado à representação puramente etnológica dos índios – um olhar científico e distanciado às figuras de alteridade -, Messora e Salaviza surpreendem positivamente pelo convite à empatia. Estes indivíduos não são definidos pela diferença em relação a nós, e sim pelo modo como lidam com conflitos universais: a perda de um próximo, as paixões, o adultério. A câmera estabelece uma relação de proximidade e confiança, evitando o aspecto de frieza do cinema dito “direto”. O resultado combina a aparência de mínima interferência, típica do documentário, com o controle estético possível apenas pela ficção. Existe uma delimitação da imagem, dos tempos e dos espaços, mas dentro deste contexto, Ihjãc, Kôtô e os demais personagens parecem livres para agir à sua maneira.


 

Quando a história abandona Pedra Branca e se transfere para a cidade, alguns diálogos soam um pouco artificiais. Mesmo assim, o deslocamento serve para retratar também os rituais comunitários dos homens brancos, como a reunião em estádios de futebol e as festas típicas do vilarejo. A ameaça aos índios, ausente nas imagens, se insere neste contexto pelos diálogos, quando os Krahô conversam sobre a pressão dos políticos em busca de voto ou os ataques de fazendeiros pela posse das terras.

 

O roteiro ressalta a diferença evidente entre o contato voluntário com a sociedade ao redor (as garotas com esmalte nas unhas, Ihjãc brincando no fliperama) e a invasão, forçada, da maioria branca que se considera proprietária do local. Em Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, a cultura Krahô não possui nada de hermético ou exótico. Trata-se de um grupo social dotado de especificidades, que precisa ser representado artística e politicamente como qualquer outro.

 

Filme visto no 71º Festival Internacional de Cannes, em maio de 2018.

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