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    Lucia Cheia de Graça
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    Lucia Cheia de Graça

    A assombração de Nossa Senhora

    por Bruno Carmelo

    O primeiro choque diante desta comédia profana é de ordem estética: as cores são saturadas como num sonho em Technicolor. Uma mãe e sua filha estão sentadas sobre um gramado infinito por onde passa um cometa. A atmosfera é tão exagerada quanto a narrativa seguinte, a respeito de uma topógrafa inocente (Alba Rohrwacher) atormentada pelas aparições da Virgem Maria (Hadas Yaron), que lhe pede para impedir uma construção imobiliária e convencer os empresários a construírem uma Igreja no local. A pobre mulher de pouca fé (“Quando criança, eu ouvi falar de Jesus, o burrinho, essas coisas”, ela explica) é subitamente abordada pela figura que julga primeiro se tratar de uma refugiada pobre, depois uma alucinação, até por fim acreditar na versão religiosa.

     

    O humor provém da conjunção entre o terreno e o etéreo, o mundano e o sagrado. O medo de Lucia em relação à Virgem Maria contraria a adoração esperada de um indivíduo crente, enquanto a recusa da protagonista em acatar as ordens vai de encontro com a aceitação tácita dos dogmas cristãos. Diante das reações contrárias de Lucia, a Virgem não hesita em partir para a luta, literalmente, sufocando a mensageira e puxando os cabelos dela. Que outro filme imaginaria uma cena de combate envolvendo Nossa Senhora? O diretor Gianni Zanasi rebaixa a figura espiritual a um plano carnal - a Virgem até ajuda Lucia a fazer a baliza com o carro. As duas figuras femininas se tornam igualmente improváveis: por um lado, uma humana mais ingênua que a média dos humanos, por outro lado, uma figura transcendental menos pura do que se esperaria de um ícone sagrado. O contato entre ambos os mundos provoca boas faíscas cômicas.


     


    O funcionamento do projeto deve muito ao talento de Alba Rohwacher, uma das atrizes mais talentosas de sua geração. Ela se apropria de uma personagem que poderia se tornar ridícula ou implausível nas mãos de intérpretes menos qualificadas, e embute na protagonista uma generosa dose de humanidade. Lucia Cheia de Graça nunca se transforma em uma narrativa mágica, tampouco puramente paródica, graças à capacidade da atriz em transitar entre a crença e a descrença, entre a coragem e a covardia diante dos planos da Virgem. É uma pena que, passado o belo estranhamento inicial, a narrativa não desenvolva a premissa: Lucia continua assombrada pelas visões, cena após cena, sem aprofundar seu relacionamento com a Virgem, nem avançar nos planos da construção da Igreja. Passada a surpresa da primeira parte, o roteiro não sabe muito bem o que fazer com a inesperada alegoria bíblica.

     

    Além disso, a moral da história torna-se didática ao denunciar a ganância dos homens, que privilegiam o dinheiro em relação aos riscos evidentes apresentados pela construção. “É corrupção?”, pergunta a melhor amiga de Lucia, Claudia (Carlotta Natoli), ao empreiteiro, a respeito da origem do dinheiro do projeto. O roteiro demonstra dificuldade em conectar suas subtramas, em especial a relação de Lucia com a filha adolescente, a amizade com Claudia e o relacionamento com o ex-namorado, Arturo (Elio Germano), um sujeito machista que acredita no direito masculino à traição, ao contrário da obrigação feminina de fidelidade. Nestas subtramas, o filme acena às críticas do machismo, da moral religiosa e da diferença entre gerações (citando Facebook e WhatsApp como sintomas de um mundo de ilusões), mas jamais aprofunda qualquer um destes debates. Para um roteiro tão centrado na questão religiosa, surpreende que não se discuta o cristianismo em momento algum, nem mesmo desenvolva o pedido da Virgem, que fica restrita ao deus ex machina forçando a protagonista a resolver seus problemas.


     


    Ainda mais estranho é o terceiro ato da trama, quando Zanasi decide retirar o protagonismo de Lucia e entregá-lo a Arturo. A topógrafa, cada vez mais introspectiva, desiste de lidar tanto com os homens quanto com a figura sobrenatural. Em outras palavras, ela abandona o conflito. Caberá então aos homens, Arturo e um antigo colega de trabalho de Lucia, resolver a situação por ela. Em paralelo, resta à personagem aceitar novamente em sua vida um homem que a tratava mal porque, visto que todos a consideram louca após as visões, esta seria sua única possibilidade de amor romântico. Como se a submissão feminina não fosse questionável o bastante, a importante cena em os personagens se vingam da cobiça do terreno é mal filmada e editada, apontando para possíveis problemas durante as filmagens. O filme se conclui como uma boa ideia, ousada e plena de potencial, que se perde conforme a narrativa avança, até se tornar pouco mais do que um esboço de sátira político-religiosa.

     

    Filme visto no 8 ½ Festa do Cinema Italiano, em agosto de 2019.

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