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    El Motoarrebatador
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    El Motoarrebatador

    Ladrão de bom coração

    por Bruno Carmelo

    Imagine que você tem a oportunidade de levar uma vida muito melhor do que a sua. Morar numa casa maior, com mais conforto, sem pagar aluguel. Basta fingir ser o inquilino de uma senhora hospitalizada, que acaba de perder a memória. Se a farsa der certo, você ganha uma família instantânea. Se der errado, vai preso. Miguel (Sérgio Prina) não pensa duas vezes, e encara o desafio. Primeiro, porque não tem nada a perder: o motoqueiro enfrenta grande dificuldade financeira, e passa os dias praticando furtos na rua. Segundo, porque a senhora doente em questão é uma vítima do próprio Miguel, que a machucou durante o roubo de sua bolsa.


    A premissa de El Motoarrebatador combina ao mesmo tempo um oportunismo e uma redenção, ou seja, a malícia e a honestidade. É conveniente a Miguel viver na casa nova, além disso, ele consegue expiar a culpa de ter quase matado uma pessoa desconhecida. O roteiro brinca com esta ambiguidade: ora Miguel é amável e contribui a dar uma melhor vida à idosa solitária, ora ele vai a uma loja para praticar novos saques. O filme deseja apresentar um personagem imoral, e ao mesmo tempo fazer com que o público se solidarize com ele, porque sabemos no fundo que Miguel realmente gosta do filho, se afeiçoa de verdade a Elena (Liliana Juárez), e não pratica os roubos por algum senso de perversidade, ao contrário do comparsa de furtos.


     


    Em outras palavras, o projeto trabalha com teses interessantes – a primeira delas de que “a oportunidade faz o ladrão”, ao invés de algum defeito intrínseco de caráter. Não há dúvida que, caso tivesse um trabalho razoável, o protagonista interromperia os roubos. Outra ideia diz respeito à natureza humana ser intrinsecamente boa, embora a sociedade a corrompa. Esta mistura de drama e comédia transforma-se em feel good movie por carregar um olhar otimista à sociedade e às pessoas, acreditando no poder de empatia sem a necessidade de mediadores externos como a religião (não por acaso, Elena perde a fé em Deus após a amnésia). Por trás da aparência fabular e um pouco açucarada, o diretor Agustín Toscano fornece farto material para debate.

     

    Isso não impede El Motoarrebatador de apresentar algumas conveniências narrativas questionáveis. A bela enfermeira que visita a casa da paciente para garantir que tudo esteja bem, o filho comportado diante de uma desconhecida para não estragar o plano do pai, e a própria amnésia constituem facilitadores de conflitos. Ao mesmo tempo, a direção às vezes aposta em estranhas imagens anguladas e cenas fora de tom (a briga entre Elena e Miguel, bruta demais), que destoam do plácido conjunto. Sérgio Prina também poderia apresentar maior variedade emocional, investindo de vez no drama ou explorando em profundidade a comédia.


     


    Mesmo assim, o resultado possui o mérito de embutir um discurso social complexo num projeto de aparência inofensiva. Além disso, defende o poder da ficção e do storytelling: ao mentir para Elena e para todos ao redor, Miguel cria uma vida fictícia para si e para a mulher idosa, algo que se revela benéfico aos dois. Há males que vêm para bem, aparentemente. Nosso protagonista de moral questionável, quem diria, se revela um bom contador de histórias. Ele tem o caminho facilitado pelo fato que tanto as pessoas que o circundam quanto nós, os espectadores, estamos propensos a acreditar na trama rocambolesca. Em Motoarrebatador, a realidade é salva pela ficção.

     

    Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2018.

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