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    Diamantino
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Diamantino

    Comédia de muitos alvos

    por Bruno Carmelo

    O projeto luso-brasileiro começa no espaço sideral. Partindo das galáxias, adentramos a Terra, Portugal, e depois um estádio de futebol. A porta de entrada para este universo é a estranheza, como se o olhar proposto ao público viesse de um visitante muito distante – um alienígena, talvez. O ponto de vista estrangeiro é perfeitamente adequado para imergir na jornada de bizarrices e exageros de Diamantino.


    O personagem principal é um jogador de futebol famoso, cuja família gerencia sua fortuna. Ele se tornou sinônimo de escândalos financeiros e gafes em programas de televisão, nos quais deixa transparecer sua baixíssima inteligência. O protagonista é uma sátira não muito discreta de Cristiano Ronaldo, Neymar e outros craques do gênero. Estamos no terreno da caricatura assumida: o jogador é ignorante e talentoso na mesma medida. Encanta-se ao descobrir existência de “fugiados”, essa gente negra que vem para a Europa em barquinhos, e que ele adoraria adotar para dar carinho e alimentar com crepes de Nutella e chantilly.


     


    Inicialmente, o filme constrói uma paródia saborosa. O ícone esportivo é um alvo fácil para o humor, mas os diretores Gabriel AbrantesDaniel Schmidt encontram imagens criativas para significar o universo infantilizado de Diamantino. Enquanto joga, por exemplo, ele se imagina cercado por dezenas de filhotes de cães em tamanho gigante, deslocando-se em nuvens rosadas como se estivessem no paraíso. O absurdo é muito bem-vindo para discutir a ausência de limites e a desconexão com a realidade. A narração afetuosa, porém simplória de Carloto Cotta convém muito bem ao personagem.

     

    Aos poucos, o humor começa a perder sua força. Algumas metáforas são repetidas – os cachorrinhos não despertam a mesma surpresa quando surgem pela terceira ou quarta vez – e o escopo da sátira torna-se amplo demais. A narrativa inclui comentários sobre o Brexit, a crise financeira de 2008 na Europa, a crise de refugiados, clonagem, corrupção dos políticos e escândalos de paraísos financeiros. Todas estas pistas são suficientemente interessantes e dignas de crítica, porém o ângulo se expande tanto que nenhuma das ideias é devidamente aprofundada. A sátira política se dissolve num humor físico, a exemplo do prazer questionável de ridicularizar um homem com seios.


     


    Por fim, a comédia se sobressai pela abordagem corajosa de seus temas e da estética. Existe um frescor juvenil na maneira de filmar, sem medo do ridículo e mesmo do amadorismo, em ambos os sentidos do termo. Faltou a este caos colorido adotar uma noção de controle, ou pelo menos de coesão nas escolhas e discursos. A crítica final se esvazia pela direção deslumbrada com suas próprias ferramentas. Diamantino certamente despertará muitas risadas, mas também uma pequena frustração pelas oportunidades perdidas.

     

    Filme visto no 71º Festival Internacional de Cannes, em maio de 2018.

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