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    Pagliacci
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Pagliacci

    Tributo carente de afeto

    por Rodrigo Torres
    "Pagliacci", a peça original do artista italiano Ruggero Leoncavallo, se tornou um clássico por uma série de aspectos articulados desde o prólogo. Nesta introdução personificada, Tonio quebra o paradigma da arte dramática da época e, em vez de preparar o público para a tragédia adiante, alertando que se tratará de mera obra de ficção, o personagem declara que mostrará a verdade — uma reprodução da realidade, dos dramas pessoais, das pessoas, por meio do ofício do palhaço.



    Eis um bonito prólogo que ganha outros signos na montagem brasileira e no filme Pagliacci, homônimos. Em primeiro lugar, é sempre louvável que uma obra adapte o original segundo seus próprios conceitos. Aqui, mais que realçar a ficção como emulação do real, o objetivo é sublinhar a figura do palhaço como uma representação radical do ser comum — assim reforçando sua relevância, sua complexidade, sua importância dramática para além da cômica. Esse é um objetivo da adaptação do grupo circense La Mínima e do documentário, que reúne cenas do elogiado espetáculo.

    Outro aspecto implícito nesse prólogo que reverencia o símbolo do palhaço é a memória de Domingos Montagner. Fundador do grupo La Mínima ao lado de Fernando Sampaio, o ator morto tragicamente em setembro de 2016, no auge da carreira e popularmente conhecido como o Santo da novela "Velho Chico", fora um militante dessa arte de fazer rir e emocionar. O legado, a memória e essa grande paixão de Duma (codinome circense do artista) são lembrados em relatos de amigos sobre seus ensinamentos, seu exemplo, e no trecho mais belo de Pagliacci: um vídeo para a Rede Globo em que Domingos Montagner homenageia o Dia do Circo. Além de seu talento, marcado por um estilo próprio, ao mesmo tempo lúdico e sóbrio, sua profunda admiração por bufões, pierrôs e arlequins ilustra com perfeição a mensagem declamada pelo Prólogo. Pena que isto ocorra já no fim do longa-metragem, e apenas.



    A direção a dez mãos de Pagliacci — Chico Gomes, Julio Hey, Luiza Villaça, Pedro Moscalcoff e Luiz Villaça — parece não ajudar neste quesito e até soa como prenúncio da inconsistência de seu registro. O documentário não consegue captar a potência do aclamado espetáculo do grupo La Mínima, nem do esforço de seu período de preparação, ou reforçar sua adoração ao palhaço, por conta de sua grande variação de enfoque: entre o palco e os bastidores, os relatos em formato convencional e uma montagem videoclipada do picadeiro, o ofício de Fernando Sampaio como fio condutor da narrativa e as imagens de arquivo em reverência a Domingos Montagner. Apesar do esforço fotográfico de Pedro Moscalcoff em aliar o naturalismo da captação com belas imagens, a forma do filme demonstra patente problema de coesão para transmitir um conteúdo tocante, que é a intenção.

    Assim, Pagliacci é eficiente em mostrar o trabalho do Grupo La Mínima, trechos de sua história e um vislumbre da peça homônima realizada pelo grupo circense; em comunicar o olhar dos realizadores sobre o palhaço como uma figura encantadora e complexa e prestar tributo a Domingos Montagner. É relevante, e será um bom material na programação da Globo News. Mas, com material tão poderoso em mãos, é incapaz de evocar na tela o que prega como sendo função de todos os objetos que homenageia: cativar, emocionar, na sala escura.
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