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    Retablo
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Retablo

    O afeto na tradição

    por Barbara Demerov
    Retábulos são estruturas feitas de madeira ou outros materiais, como o mármore, cuja origem está diretamente ligada à religião, ao cristianismo. Sendo assim, são obras construídas e pintadas a mão que carregam os mais diversos significados; seja com mensagens pessoais a quem os faz, ou universais a quem se vê. Estas pequenas construções são o cerne de Retablo, filme peruano que não só traduz a essência de uma parcela da cultura local como também insere tal objeto como a fonte de amor entre um filho e seu pai - e vice-versa.

    Trabalhando ao lado do patriarca da família, o jovem Segundo (Junior Bejar) sente prazer e alegria ao acompanhá-lo em cada viagem, observar cada passo da produção de retábulos e, ao voltar para casa, ver a alegria de sua mãe. Mas o que há mais de bonito no filme do diretor Álvaro Delgado-Aparicio é o que está nas entrelinhas, ou melhor, no modo como as cenas são filmadas de modo a parecerem retratos pintados, tais quais os objetos que dão o título à história. É na cena em que ouve o pai chorar ao chegar em casa, por exemplo, que Segundo se pergunta internamente o que há de errado com ele, mesmo com uma família feliz, um trabalho honesto e uma casa aconchegante. Assim como é num olhar curioso e inocente que o jovem protagonista sente a estranheza ao pensar que seu pai talvez não seja ele mesmo e se esconda por trás do prestígio na pacata sociedade.

    Sob o olhar de Segundo, Retablo constrói toda a dinâmica familiar para que, só depois, passe a inserir a problemática do roteiro que envolve religião e intolerância. O garoto passa a entender aos poucos o que está acontecendo com o pai e com o prestígio que vai se esvaindo, ao mesmo tempo em que ainda transmite em seu terno olhar toda a admiração que tem pelo trabalho feito naquelas pequenas peças que traduzem tanto sentimento. Se por vezes é brutal, a história equilibra com louvor seus momentos difíceis com a beleza natural do Peru e aquela pequena aldeia. As cores das roupas, das decorações e do próprio ambiente verde em si transmitem o acalento que Segundo necessita, ainda que os contrastes violentos que se desenrolem sejam impactantes e silenciosos ao mesmo tempo.



    Segundo faz escolhas que apenas deveria fazer quando fosse mais velho (isso se acontecessem de fato caso o segredo do pai não fosse descoberto). Questões como sair ou não da vila que foi criado, acompanhar o pai e seu trabalho ou a mãe com uma vergonha profunda, são opções que o tornam mais maduro num espaço de tempo extremamente curto. O tom é sempre melancólico, mas Segundo expressa tudo o que pensa através do silêncio, de olhar ora assustado, ora absorto na dúvida de não saber como ajudar ambos os pais, sem entender porque a mesma vila que os acolheu agora lhe dá as costas. E a câmera está sempre ali, acompanhando-o na maior parte do tempo seguindo seus passos, para que o espectador também descubra o que a história tem a dizer.

    As camadas de Retablo muito se assemelham às camadas de um retábulo em si. Tudo é apresentado aos poucos, com paciência, e a profundidade é vista lentamente até que todo o cenário esteja pronto para ser libertado. A aventura pessoal de Segundo é dolorosa, mas poética de se ver graças à ótima direção e a bela atuação de Bejar. Ao fim da narrativa, o garoto já viveu tantoque não se é possível mais vê-lo uma criança inocente. Sua postura ao observar a casa vazia já não é mais a mesma, mas de certa forma ele está liberto do que o fez sofrer - e pronto para seguir em outro lugar com uma tradição que, inevitavelmente, imprime toda sua identidade.
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