Notas dos Filmes
Meu AdoroCinema
    Meu Bebê
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Meu Bebê

    A hora de sair de casa

    por Bruno Carmelo

    Héloïse (Sandrine Kiberlain) descobre que a filha adolescente foi aceita numa faculdade canadense, e está prestes a sair de casa. Se fosse preciso resumir a trama de Meu Bebê, este seria o principal - e talvez único - conflito verdadeiro. É uma grata surpresa descobrir que Lisa Azuelos, diretora conhecida pelas comédias românticas um tanto inofensivas, retratou a sua própria experiência com a filha adolescente num projeto menos afeito às fórmulas do que de costume. Em Rindo à ToaLola e Um Reencontro, a cineasta trabalhava com a ideia de uma reconciliação inevitável. Desta vez, ela abandona o tom fabular para privilegiar a situação universal dos pais confrontados ao amadurecimento dos filhos.

     

    A trama efetua idas e vindas no tempo para confrontar a infância à juventude. A dinâmica entre os personagens transparece notável fluidez e naturalidade nos diálogos, com especial atenção aos figurinos, acessórios e gestos. O filme resgata as músicas preferidas de cada um, as gírias, as referências cinematográficas, as diferentes formas de paquerar. Através dos telefones celulares, tablets e redes sociais, a narrativa explora com naturalidade a evolução dos relacionamentos, além de discutir as experiências de sexo, drogas e álcool. Kiberlain está muito desenvolta no papel da mãe progressista, evitando sublinhar falas suficientemente cômicas em estilo minimalista, na fronteira entre o humor e o drama. Thaïs Alessandrin, jovem atriz pouco experiente e filha da diretora Lisa Azuelos, também se sai bem numa versão muito próxima de si mesma.


     


    Um dos melhores aspectos do projeto é o fato de não oferecer saídas fáceis ao impasse: a mãe está feliz que a filha tenha sido aceita numa ótima faculdade, e triste que ela tenha que partir. Ela quer, e não que, que a garota saia de casa. Em Hollywood, esta diferença provavelmente seria sublinhada de modo a tornar a mãe conservadora demais, diante da garota excessivamente rebelde. Meu Bebê prefere subverter expectativas: desta vez é a mãe quem fica colada ao telefone celular ao invés da garota jovem, e esta demonstra preocupação evidente com os sentimentos da mãe na hora de partir. Estes dois mundos se comunicam, apesar das diferenças, como se não houvesse ruptura real da juventude à vida adulta. É possível enxergar uma continuidade entre Jade e Héloïse, como se constituíssem a mesma mulher em duas fases da vida.

     

    Ao mesmo tempo, o projeto revela um olhar afetuoso à liberação feminina, apesar de não levantar bandeiras sobre o tema. A mãe multiplica os encontros amorosos sem ser julgada moralmente por isso, e a filha consome maconha e bebe sem qualquer forma de preconceito ao redor. É interessante observar o confronto inerente à criação progressista: por permitir a maconha, o álcool e o sexo com o namorado dentro de casa, de que maneira Héloïse pode exercer a autoridade quando se opõe a alguma decisão da garota? Quando a autoridade se converte em autoritarismo, e quando a liberdade moral se torna permissiva demais? Através de simples trocas entre mãe e filha, o roteiro navega pelos conflitos inerentes à maternidade. Afinal, nenhuma destas mulheres é idealizada: elas fazem o que podem, e erram como qualquer uma.


     


    Apesar do carinhoso retrato geracional, Azuelos não se priva de exagerar no idílio da maternidade e em alguns símbolos fáceis. Não basta mostrar o amor da mãe diante de seu bebê, é preciso usar câmera lenta e flares durante a cena; não basta que Jade fique triste antes de partir para o Canadá, ela dorme em posição fetal, chupando o dedo. A referência a O Desprezo, de Godard, pode fazer a alegria dos cinéfilos, mas se despe de qualquer sutileza quando a câmera efetua um zoom no cartaz do filme após reproduzir os diálogos do clássico. A cineasta nunca teve uma mão particularmente leve com seu material, mas talvez tenha encontrado o melhor equilíbrio entre a pretensão de ser acessível ao grande público e a vontade de retratar amores verossímeis. Não será difícil para o espectador se identificar com um ou mais personagens deste núcleo familiar.

     

    Filme visto no Festival Varilux de Cinema Francês, em junho de 2019.

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    Comentários

    • Maurício Andrade
      Assim como a diretora não foi leve em uma cena ou outra, ela foi leve durante a maior parte do filme. Muito bem utilizadas as cenas com a filha jovem e criancinha. Diálogos muito verosímeis, falados de uma forma realmente natural. Muito difícil alguém chegar e falar “não concordo com esse diálogo, falaram besteira”. Não! Esse filme me surpreendeu. Confesso que não esperava muito, com esse nome e essa (curta) duração. Mas o nome do filme condiz bastante com o filme e foi um filme muito bem feito em seus menos de 85 minutos. Que atuações das duas protagonistas! 4,5 estrelas!
    • Isabelle
      Uma delícia. A diretora seguramente não tem mão leve e às vezes o exagero aborrece, como a cena do encontro amoroso frustrado, na casa de Heloïse. Mas Heloïse é tão cativante - e salve a experiente Sandrine! - e tudo mais é tão carinhoso, que acaba sendo uma boa experiência de cinema e de vida...
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