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    Acqua Movie
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Acqua Movie

    (Re)encontros

    por Barbara Demerov
    O maior desejo de um garoto é conhecer as raízes do pai que faleceu recentemente, mas mal sabe ele que será dessa forma que conhecerá mais de si mesmo. A premissa de Acqua Movie é um tanto simples, mas possui uma abrangência universal: o filme fala sobre o quanto a ausência maternal afeta a vida e a mente de uma criança, e o quão importante é estreitar laços, bem como entender o que se passa na cabeça de quem é próximo.

    Aliado ao drama familiar entre mãe e filho, coloque tudo isso num road movie e pronto, temos a comunhão perfeita para uma história que dosa diversão com drama. Na pele de Duda, Alessandra Negrini é mãe de Cícero (Antonio Haddad), menino que sente grande necessidade de conhecer a cidade onde o pai (Guilherme Weber), vítima de um infarto, nasceu. Desta forma, eles viajam de São Paulo ao sertão do Pernambuco, onde tudo é mais seco e ensolarado.

    Tal local (que Duda teima no início em não ir) transforma-se na possibilidade de recomposição do amor entre mãe e filho, que tornaram-se praticamente estranhos pelo fato de Duda sempre estar viajando a trabalho. Ela é documentarista e trabalha na floresta Amazônica, e o filho não compreende esta necessidade dela se manter tão focada em sua missão, isolando-se da família. Acqua Movie deixa explícito desde o princípio que Duda é uma pessoa mal compreendida pelo marido e filho, o que dá margem ao espectador entender seu lado de que ela apenas quer executar seu trabalho - da mesma forma que, se o pai encarnasse este papel, tudo estaria relativamente bem, pois este o "normal" dentro da sociedade.



    Mas o interessante é que a má interpretação do filho vem puramente da necessidade dele ter a mãe por perto, barreira esta que vai se rompendo quando Duda volta para casa por conta da morte inesperada do marido. O diretor Lírio Ferreira ajuda a compor os momentos de tensão e dúvida de ambos os lados com planos e enquadramentos de cores extremamente frias quando em São Paulo, com os dois personagens distantes um do outro, sem sequer se olharem. É só quando eles colocam o pé na estrada que o contato vai ficando mais colorido e suave, com olhares ora se encontrando e um entendimento sobre o outro aparecendo aos poucos.

    Negrini une todas as pontas da história com destreza, atuando como a principal fonte de vida do personagem de Haddad uma vez que ele perdeu quem mais tinha por perto. É no sertão do país que Cícero aprende que a família do pai não era quem ele achava que fosse, e que a mãe estava certa na incerteza de visitá-los. Porém, é só a partir desta longa viagem que Acqua Movie encontra seu tom de road movie, transitando entre o naturalismo contido nas imagens, e na forma como os personagens vão dialogando, com o contraste da inocência de Cícero - que logo se transforma no discernimento do que realmente importa.

    A contemporaneidade da trama de Duda, que envolve proteção das florestas e dos indígenas, assim como a metáfora do desaparecimento da antiga cidade do pai (que hoje se encontra debaixo d'água) e da "nova" cidade administrada pelo tio de Cícero, rígido em palavras e atitudes, dialoga diretamente com o menino e a mãe, que precisam mergulhar profundamente - no caso, nas águas do Rio São Francisco - para reencontrar o significado desta preciosa relação.

    Filme visto durante a 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2019.
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