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    Boas Intenções
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Boas Intenções

    Os maus heróis

    por Bruno Carmelo

    “Ela é uma santa!”, “um raio de sol!”, dizem as pessoas a respeito de Isabelle (Agnès Jaoui). Também, pudera: a mulher passa os dias efetuando trabalhos voluntários como dar aulas de francês a imigrantes e refugiados, distribuir sopa aos moradores de rua e arrecadar roupas para doar aos desfavorecidos. Isabelle chega a abrigar um bebê em sua casa, para ajudar uma aluna em dificuldade. Em termos de trabalho caritativo, ela apresenta uma performance invejável. No entanto, as pessoas ao redor temem a protagonista: afinal, cada jantar em família se transforma na oportunidade de culpabilizar os parentes por seus “vícios” (não comprar produtos orgânicos, não pesquisar a origem das roupas compradas) e discutir sobre os males do mundo. Você sabia que, na África, muitas crianças são forçadas a trabalhar como soldados?

     

    Boas Intenções se diverte ao dissecar uma ala muito específica da esquerda caviar, no caso, aquela que se esforça em aplacar sua culpa burguesa (Isabelle mora num apartamento luxuoso, herdado da mãe) enquanto esbanja senso de superioridade ao apontar o dedo aos vilões do mundo contemporâneo. A iniciativa de Isabelle não a destitui de evidente arrogância em relação aos demais: em última instância, a real beneficiada dos atos seria a própria protagonista, erguida num patamar moral superior ao demais, ao invés de tantas pessoas pobres. O discurso salvacionista ecoa de modo particular na França colonialista, que acredita “salvar a África” sem perceber que parte considerável do problema foi causada por ela mesma. Ou seja, a ajuda não constituiria um gesto altruísta, e sim uma reparação a que estas pessoas teriam direito.


     


    Com sua câmera na mão brincando com a aparência de realismo, o cineasta Gilles Legrand efetua uma paródia da esquerda destinada à própria esquerda – afinal, jamais se critica a caridade em si, apenas a instrumentalização da mesma. Em tempos polarizados, a capacidade de autocrítica é muito bem-vinda, assim como a importante discussão sobre a fronteira entre caridade e justiça social, ou ainda entre colaborar com o pobre ou lhe dar as ferramentas para sair desta situação por conta própria. O texto está repleto de piadas irônicas sobre Isabelle e Elke (Claire Sermonne), outra professora de francês e concorrente de Isabelle na arte da ajuda ao próximo. Além disso, Jaoui é uma atriz despida de vaidades, muito confortável neste tipo de humor autodepreciativo focado nos diálogos velozes, coloquiais. O mesmo não pode ser dito, no entanto, da galeria um tanto grosseira que a cerca, a exemplo da mãe individualista (Michèle Moretti) e do irmão insensível (Eric Viellard).

     

    Esta impressão decorre do fato que as interações no roteiro constituem meros exemplos de caso. Toda cena carrega o peso de escancarar o ridículo ou exagero das ações, sem qualquer forma de respiro: não existem momentos de Isabelle interagindo de modo despojado com os familiares ou amigos, pois cada gesto está invariavelmente relacionado à caridade ostensiva. Isso resulta numa metralhadora cômica que funciona em diversas cenas, porém soa repetitiva a certa altura da trama, além de reduzir a plausibilidade dos personagens. Boas Intenções privilegia a comédia ácida, porém se esquece do cerne dramático evidente nas relações humanas abordadas. Devido à divisão em esquetes, o ritmo nunca se interrompe – e talvez o problema seja este: o filme nunca se interroga sobre os seres humanos por trás das relações de poder entre ajudantes e ajudados.


     


    Esta questão transparece na caracterização um tanto patética dos imigrantes. Para pegar um único exemplo, basta pensar no personagem brasileiro (Nuno Roque), um garoto possivelmente autista cujos pensamentos são banhados em samba e cujo vestuário se resume ao uniforme da seleção de futebol. O roteiro critica explicitamente estes estereótipos apenas para reforçá-los. No final, o olhar se mantém do lado dos franceses burgueses, sem se preocupar em investigar a personalidade de tantas pessoas desfavorecidas que passam pela sala de aula de Isabelle. Ainda mais grave é a conclusão: depois de tanto criticar a atitude da protagonista, o desfecho faz com que o mundo se adeque à sua prática, ao invés de ela aparar suas arestas para se inserir ao mundo. Ao final, Legrand reforça o discurso heroico da boa samaritana, sem conseguir encontrar uma maneira plausível de conciliar auxílio e respeito ao próximo.

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