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    Matthias e Maxime
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Matthias e Maxime

    O amor inevitável

    por Bruno Carmelo

    Uma estudante de cinema precisa filmar um curta-metragem para os estudos. O projeto consiste unicamente em dois homens, sentados num sofá, se beijando em plano único. É difícil acreditar que este possa constituir um exercício acadêmico, mas os amigos Matthias (Gabriel d’Almeida Freitas) e Maxime (Xavier Dolan) aceitam participar após perderem uma aposta. Depois daquele beijo, a vida dos dois amigos heterossexuais se transforma. Eles passam a ser perseguidos, de certo modo, pela pulsão homossexual que descobriram um com o outro.

     

    Maxime começa a enxergar outdoors de propaganda de margarina pela cidade, com a tradicional família patriarcal sorrindo. Matthias precisa acolher um cliente jovem e sedutor, que tromba com ele na chegada ao aeroporto, enquanto o chefe lhe diz: “Na sua idade, é natural ter dúvidas e tentar coisas novas”. O discurso diz respeito a caminhos profissionais, mas Matthias sabe que se trata de sua orientação sexual. O início do filme é recheado de traços premonitórios, preparando o público para a união inevitável entre os amigos. Todas as cenas seguintes, seja em casa, com as mães ou namoradas, são marcadas pelo visível desconforto dos protagonistas pensando um no outro. Para catalisar os problemas e acelerar os desejos, Maxime está prestes a se mudar para a Austrália.


     


    Matthias et Maxime se constrói como um filme romântico, acreditando em forças do destino, no amor superando adversidades, no afeto vencendo preconceitos. Xavier Dolan, diretor conhecido pela mão pesada e pelos truques de linguagem (trilha sonora em excesso, câmeras lentas, cores saturadas e outros penduricalhos), tenta revelar seu lado minimalista, até porque o tema constitui justamente o não-dito. As cenas de gritos deixam de ocupar o primeiro plano – embora ainda existam, marginalmente, entre o protagonista e sua mãe (Anne Dorval) – para abrirem espaço aos garotos observando uma janela em silêncio, ou nadando até não aguentarem mais, como se tentassem expurgar a culpa através da punição corporal. Esta constitui uma bem-vinda tentativa do cineasta canadense em navegar pela introspecção.

     

    Os melhores momentos se encontram nas cenas que menos intervêm no jogo entre os atores. Algumas trocas de olhar no meio de uma festa são bastante convincentes, de mesmo modo que as conversas amigáveis entre Maxime e a tia Francine (Micheline Bernard) transbordam de afeto. A noção de uma juventude perdida, que se move sem objetivo preciso – o protagonista parte para a Austrália sem saber ao certo o que fazer por lá -, também corresponde a uma visão naturalista da entrada na fase adulta durante um período de crise econômica e perda de referências. Os trabalhos, estudos e famílias deixam de representar pontos de estabilidade para a dezena de colegas, de modo que qualquer possibilidade de fuga – a viagem, as festas regadas a álcool, a homoafetividade – se tornam irresistíveis.


     


    No entanto, o diretor ainda insiste em tiques que pouco contribuem à condução narrativa, enquanto chamam atenção excessiva a si mesmos. Durante as festas, a câmera efetua pequenos zooms nervosos destinados a imprimir um dinamismo artificial. A decisão de ocultar ao público a cena do beijo no curta-metragem, e jamais mostrar o material filmado, soa como um capricho inexplicável: por ser o principal catalisador de conflitos, por que deixar o beijo subentendido? As cenas seguintes não se tornariam muito mais fortes se o espectador descobrisse, junto dos personagens, o afeto nascendo em meio ao desconforto e o medo? Quando atingimos ao aguardado clímax entre os protagonistas, a cena acumula um som de terremoto, duas trilhas sonoras diferentes, o barulho da chuva lá fora, a transparência da cortina, o reflexo do vidro, ângulos distintos e um zoom out da câmera. Mesmo assim, no excesso quase paródico, Dolan se mostra mais contido que de costume, mais próximo do material humano do que dos sedutores efeitos de pós-produção.

     

    Talvez o principal discurso de Matthias et Maxime diga respeito à masculinidade frágil. O pequeno beijo encenado, em caráter de brincadeira e jogo cênico, torna-se o motivo para tantas dúvidas, tanta raiva, tristeza, amor e desejo sexual. Os colegas ao redor provocam, recordam outro suposto beijo, amigável, muitos anos atrás entre os dois homens, para mostrar que isso não se esquece tão cedo, que marcaria a trajetória de ambos para sempre. Se estivessem mais confortáveis com seus corpos, certos de sua sexualidade e menos preocupados com os olhares alheios, Matthias e Maxime viveriam bem, tanto com suas namoradas quanto com o beijo eventual, que poderia ser prazeroso, inconsequente, sem provocar terremotos e chuvas.

     

    Filme visto no 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio de 2019.

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