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The Wild Goose Lake
Críticas AdoroCinema
3,0
Legal
The Wild Goose Lake

O ladrão, o policial e a prostituta

por Bruno Carmelo

Antes de qualquer coisa, seria importante afirma que este filme chinês constitui um exercício de estilo. O diretor Diao Yinan está menos interessado nos caminhos de sua trama policial do que nas possibilidades estéticas das cenas de brigas, das perseguições, das mulheres fatais caminhando pelas ruas. Desde a cena inicial, quando o ladrão (Ge Hu) encontra a prostituta (Lun-Mei Gwei), um ainda não conhece o outro, e o espectador tampouco sabe quem eles são. O que realmente chama a atenção é o jogo de sombras de ambos sob a lâmpada neon, o barulho forte da chuva que espreme ambos sob a marquise, o movimento de câmera para acompanhar o instante preciso em que a mulher fecha o guarda-chuva.

 

O jogo de luzes e sombras se mantém ao longo das duas horas seguintes. The Wild Goose Lake conta com uma impressionante produção, capaz de criar muitas dezenas de cenários repletos de figurantes, de roupas e objetos, apenas para os personagens caminharem ou correrem ao longo de uma cena. O retrato da cidadezinha pobre se torna palpável graças à filmagem predominantemente noturna e externa, através das ruas onde vendedores ambulantes preparam comida e contrabandistas negociam o preço de seus produtos. As duas grandes cenas de luta demonstram o virtuosismo do cineasta, capaz de criar um balé tão elegante nos cortiços da cidade quanto gore, pela quantidade de tripas expostas e cabeças cortadas. Não resta dúvida quanto ao talento do cineasta para manejar o noir, o horror e o policial.


 


No entanto, o espectador sairá da sessão sem conhecer praticamente nada sobre seus personagens principais. Eles permanecem presos a seus arquétipos – o ladrão, o policial, a prostituta, a esposa, o comparsa, o delator, o cúmplice -, cada um com um único objetivo central ao longo da trama. O farrapo de narrativa se resume a um quiproquó envolvendo a recompensa pela captura do bandido, que este pretende usar a seu favor para beneficiar a esposa e a filha pequena – cujo rosto sequer vemos na história. Quem se interessar pela origem desta busca, pelo passado criminoso ou o desenvolvimento dos laços entre o protagonista e sua nova comparsa, ficará frustrado. O projeto constitui um filme de ação no sentido em que tudo é exterioridade: os personagens caminham, correm, atiram, mas falam muito pouco e interagem menos ainda. Eles quase não refletem, sentem nem desejam (vide o tiro sem dor e o orgasmo sem prazer). Testemunhamos meros corpos em movimento.

 

O resultado é menos a sensação de frieza do que de estranhamento, como se a montagem ocultasse voluntariamente do seu público o início e o fim de cada cena. Somos lançados no meio das brigas, para só então descobrir quem estava brigando; descobrimos a dupla central num barco, compreendendo mais tarde que fizeram sexo; presenciamos uma altercação com a polícia, sem ainda saber em que altura se encontra a investigação e o processo de delações. The Wild Goose Lake constitui um filme confuso, desconexo, como se a decisão de retirar referências precisas de tempo e de causalidade fosse o preço a pagar para direcionar o olhar do espectador à riqueza das imagens.


 


Por fim, é difícil dizer que algum personagem se revele particularmente marcante, ou que o público seja convidado a torcer por alguém. A experiência do filme solicita um espectador passivo, incapaz de participar via tensão ou pelo jogo de expectativas – até porque os planos não são suficientemente delineados para que se faça previsões. Assistimos de maneira distanciada ao festival de brutalidade e sensualidade, peças de um jogo avesso a sutilezas. Ao herói, cabe limpar sua própria ferida de bala enquanto segura a arma com a outra mão. À heroína, fica a responsabilidade de andar sozinha pela rua, espremida em roupas justas, segurando uma quantia importante de dinheiro nas mãos. Trata-se de um programa raso em reflexões ou mesmo subversões, ainda que constitua um belo exemplar do que o cinema de gênero pode oferecer, tanto pelos prazeres fetichistas da violência e do sexo quanto pelo desbunde dos cuidadosos movimentos de câmera e dos recursos de iluminação.

 

Filme visto no 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio de 2019.

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