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    Adeus à Noite
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    Adeus à Noite

    Terrorismo para principiantes

    por Bruno Carmelo

    A origem deste projeto permitia criar as melhores expectativas. Primeiro, pelo diretor, André Téchiné, um veterano que sempre prestou muita atenção a questões sociais, étnicas e de sexualidade. Segundo, pelo elenco impressionante, incluindo Catherine DeneuveJacques Nolot e o jovem Kacey Mottet Klein (o astro de Home e Minha Irmã). Além disso, a ideia de debater abertamente as origens do totalitarismo na França, um dos países europeus mais afetados por atos de terrorismo, seria uma iniciativa tão delicada quanto louvável.


    O roteiro, a princípio, transmite o cuidado com o tema. Deneuve interpreta Muriel, mulher francesa que viveu muitos anos na Argélia e se casou com um habitante local – ou seja, partimos de um olhar empático à cultura árabe. Ela não possui qualquer religião, porém enxerga com respeito a notícia de que o neto Alex (Mottet Klein) se converteu ao islamismo. Os diálogos são naturalistas, ainda que Téchiné revele ao espectador, desde o momento inicial, os planos do garoto para participar de um atentado em nome da religião. Alex ainda faz seus primeiros passos dentro da hierarquia islâmica, mas deseja ser respeitado, temido.


     


    Farewell to the Night se preocupa em compreender a mente de alguém que comete tais atos, a ponto de apresentar um contraponto a Alex: no caso, um antigo terrorista (Kamel Labroudi), amigo e guia de Muriel, explicando como se envolveu com criminosos, e de que maneira decidiu abandonar os planos de se tornar um homem-bomba. Talvez a explicação seja didática, mas apresenta dissidências dentro da religião – mesmo dentro dos extremistas -, observando estes homens como jovens inseguros, em busca de reconhecimento, ao invés de figuras intrinsecamente más. Rumo ao final, no entanto, a história começa a exigir cada vez mais de nossa boa vontade, com algumas reviravoltas e concessões questionáveis à lógica.

     

    No entanto, os problemas de roteiro são pequenos, se comparados com as deficiências técnicas. Chega a ser surpreendente que uma produção deste porte possua falhas de execução tão graves: a direção de fotografia executa movimentos de câmera truncados; a fotografia em interiores, com luz de lâmpada, é incrivelmente pobre; a montagem traz alguns cortes “cropados” e outros que mais parecem erros; a correção de cor se desregula de um momento ao outro; a continuidade se perde; a direção de arte chega a despertar algumas risadas pela construção do estábulo onde o potencial terrorista fica preso. Apenas a captação e finalização de som se revelam competentes. O projeto parece ter sido filmado com pouco dinheiro, às pressas, e concluído de modo igualmente rápido para ser exibido – fora de competição, compreensivelmente – no festival de Berlim.


     


    É lamentável que o projeto perca sua potência por questões tão simples de linguagem cinematográfica, enquanto o discurso revela uma ambição ímpar (na televisão, uma reportagem alerta ao crescimento da extrema-direita francesa, por explorar o medo diante do terrorismo). Catherine Deneuve está confortável em cena, como sempre, e tanto Kacey Mottet Klein quanto Oulaya Amamra se esforçam para transmitir a fragilidade dos jovens extremistas. O elenco e o tema mereceriam um mínimo de cuidado estético para que o filme, como um todo, adquirisse a visibilidade necessária.

     

    Filme visto no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019.

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