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    Museu
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Museu

    O valor de uma obra inestimável

    por Bruno Carmelo

    No centro de Museo encontra-se o típico “filme de assalto”, subgênero comum às comédias de ação sobre pessoas comuns que, superando todas as expectativas, enganam fortes esquemas de segurança e executam roubos milionários. Neste caso, a história é inspirada em fatos conhecidos no México: em 1985, dois jovens veterinários sem passagem pela polícia conseguem roubar mais de cem peças do Museu Nacional de Antropologia. No entanto, quando estão em posse dos artefatos, enfrentam dificuldades em tirar algum proveito financeiro da conquista: quem vai comprar as peças mais caras e procuradas do país?


    O diretor Alonso Ruiz Palacios faz o possível para trazer originalidade a um subgênero baseado na linearidade e no cumprimento de expectativas – afinal, sabe-se desde o princípio que o roubo será bem-sucedido. Ele emprega diversos recursos imagéticos incomuns, incluindo a câmera frenética nas cenas familiares, para mostrar o clima de opressão em volta de Juan (Gael García Bernal), a montagem rápida e picotada durante a extração das peças, ou mesmo um “falso congelamento” das imagens, com os atores parados e filmados como se estivessem numa fotografia. Esses momentos soam como uma traquinagem sem grande importância, porém servem a quebrar expectativas sobre o modus operandi dos filmes de roubo.


     


    Além disso, o diretor assume seu filme como uma farsa. Embora se trate de uma “réplica” dos fatos reais – termo cuidadosamente escolhido, é claro – Museo se esforça para sublinhar seu distanciamento em relação aos fatos. Diversos elementos são fantasiados ou exagerados, a exemplo da construção sonora e da facilidade com que o plano é conduzido. Mesmo a cena de briga no bar tem uma mudança súbita na luz, e os atores passam a encenar exageradamente, com socos que passam a metros da vítima, enquanto os ruídos insistem na existência de um impacto verdadeiro. Palacios reforça o faz de conta, algo impossível por excelência. “Por que estragar uma boa história falando a verdade?”, diz um personagem na conclusão. A realidade torna-se, no melhor dos casos, uma fonte de inspiração.

     

    Embora funcione bem como suspense e extraia boas risadas nas partes cômicas – Gael García Bernal fica sempre muito confortável no papel do moleque irresponsável, em contraponto à timidez excessiva de Leonardo Ortizgris – o filme toma o cuidado de ser educativo e reflexivo. Em duas ou três cenas, os personagens travam longos debates sobre o valor de uma obra de arte e o significado de seu roubo. Afinal, os museus mais famosos do mundo não são constituídos de obras roubadas? Os roubos não servem para, ao menos, chamar a atenção para a existência de obras que o público comum desconhece? Ou para comprovar que a cultura não tem preço?


     


    É uma pena que, rumo à conclusão, Museo se torne cada vez mais inofensivo. O filme realizado em colaboração com instituições culturais mexicanas transforma Juan num anti-herói responsável por valorizar as obras de arte mexicanas pelo fato de terem sido roubadas – mas bem preservadas, afinal, ele possui grande amor pela cultura de seu país. O roteiro sugere que o episódio serve de prova de amor vinda de um sujeito equivocado, mas de bom coração. Trata-se de um raciocínio pueril para um filme inicialmente malicioso, com ambição de discutir seriamente a questão de patrimônio. A comédia se fecha como uma homenagem às avessas à cultura mexicana, e um lembrete sentimental de que só damos valor a algo quando o perdemos – o que, no roteiro, é exemplificado pelas pessoas e pelos objetos. Ora, lições de moral são elementos que definitivamente não se esperava de um projeto como este.

     

    Filme visto no 68º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2018.

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