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Críticas AdoroCinema
2,5
Regular
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Morte aos artistas

por Bruno Carmelo

A representação de cineastas e atores iranianos nos festivais de cinema internacionais tem sido marcada por ausências: muitos deles são proibidos pelo governo de filmar, devido ao posicionamento crítico. Em outros casos, a obra pronta é proibida de circular. Alguns filmes precisaram ser feitos no exílio, outros atravessaram as fronteiras do país escondidos em pen drives. Agora, o diretor Mani Haghighi decidiu abordar o tema através de uma metáfora cômica: em Khook (“Porco”), os principais cineastas do país estão sendo assassinados. Suas cabeças são cortadas, e a testa é retalhada com a palavra “porco”.


Não é difícil perceber a analogia entre a perseguição à arte e a morte do artista. O personagem principal, Hasan (Hasan Ma’juni) começa a ser ignorado pelos principais colaboradores de seus filmes anteriores, por não poderem mais esperar uma eventual reversão de sua pena. A atriz fetiche Shiva Mohajer (Leila Hatami) começa a filmar com seu maior inimigo, enquanto Hasan é condenado a fazer patéticos comerciais de inseticidas incluindo um balé de baratas. O roteiro se diverte com a paródia das dificuldades cotidianas dos artistas, explorando a dicotomia entre o popular e o erudito, ambos acentuados para finalidade cômica. Enquanto o comercial de televisão é ridículo, o filme de arte realizado por seu colega também se revela pomposo demais.


 


Khook extrai bons momentos dos diálogos ácidos, sublinhando a posição marginal de Hasan na indústria – ele é sempre o único vestido com uma camiseta de rock rasgada, cercado por sujeitos elegantes. Algumas piadas funcionam melhor do que outras (o timing durante a cena da festa e do interrogatório é particularmente bem dosado, enquanto as cenas do poste e a de abertura soam lentas e óbvias demais). A obviedade, aliás, prejudica este projeto que repete a maior parte de suas ideias, visando a comunicação com um público amplo. O papel exacerbado das redes sociais na sociedade iraniana contemporânea é criticado com boas ideias, porém sublinhado à exaustão.

 

De resto, para um público ocidental, talvez a comédia incomode por se concentrar na figura de um homem, Hasan, tentando controlar o corpo e as ações de uma mulher, Shiva. Para o filme, o fato de uma atriz trabalhar sempre com o mesmo cineasta implica na obrigação de um relacionamento sexual entre eles, enquanto todos os homens dão ordens à mulher solteira e adulta sobre o que pode ou não fazer. Esses fatores não incomodaram a plateia persa que ria euforicamente a cada vez que Hasan persegue sua musa, mas é inegável que uma história adquire valores diferentes de acordo com a cultura de quem a vê. No Brasil, por exemplo, uma trama semelhante despertaria críticas imediatas.


 


O resultado vale também pela oportunidade de assistir a uma raríssima comédia iraniana escrachada, comercial, com espaço para o humor físico e a ironia em relação à própria cultura. A metáfora da censura às artes não vai muito longe, apesar da boa ironia de Hasan desejar ser atacado pelo assassino, como prova de sua relevância social. Talvez a curiosa premissa seja mais interessante do que sua execução competente, porém padronizada.

 

Filme visto no 68º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2018.

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