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Betty, They Say I’m Different
Críticas AdoroCinema
2,5
Regular
Betty, They Say I’m Different

Em busca de Betty Davis

por
Não se recrimine se você jamais ouviu falar da cantora que dá título a este enxuto documentário. Betty Davis surgiu tão rápido quanto desapareceu, explodindo na black music em plenos anos 70 com seu hard funk de voz rouca que transbordava sexualidade, muito antes da ascensão de uma certa Madonna. Foram apenas três discos, todos de alcance limitado, o que atrapalhou bastante a saída do gueto em busca do mainstream. No fim das contas, acabou como mais uma vítima da implacável indústria fonográfica, com suas imposições de estilos e crenças.


É em busca desta mulher libertária que o diretor Philip Cox compõe a narrativa deste média-metragem, de apenas 54 minutos. Por que tamanha repercussão, apesar das dificuldades impostas pelo sistema da época? Onde foi parar esta cantora revolucionária que, repentinamente, desistiu de tudo e sumiu por 35 anos? Cox parcialmente responde estas perguntas, devido à dificuldade em encontrar material de época e também pela própria reclusão de sua musa inspiradora, ao se recusar a estrelar seu próprio filme - o que causa um certo desconforto, devido ao modo como o diretor constrói um clímax que jamais chega nem é justificado.

Apesar disto, há pontos interessantes em sua trajetória. A transformação da esposa de Miles Davis neste furacão lascivo, cujo som era incomparável aos shows que protagonizava - segundo relatos do próprio documentário, sem qualquer imagem que comprove -, é um dos muitos aspectos que merecem atenção, não apenas pela proposta musical empregada mas também pelo tanto que representava em uma sociedade rachada como a americana, na qual os negros lutavam não só por espaço mas por seus direitos. Ao fugir do comportado, Betty era a imagem do descontrole no palco, pela forma como se expressava e a qual induzia seu público - e isso assusta, aos que buscam a manutenção do status quo. Não por acaso, foi vítima de sua própria ousadia.


Soma-se a isso detalhes pontuais que, infelizmente, o documentário não se aprofunda. Como, por exemplo, a menção de que Miles Davis era um homem violento ou mesmo o alcance da própria Betty dentro da cultura negra, revelado apenas por algumas capas de revista e matérias jornalísticas. Não há uma análise mais ampla do contexto retratado nem mesmo uma busca intimista pela personagem, impossibilitada pela recusa da própria protagonista. Diante disso, torna-se um filme bastante limitado, que mais se propõe a ser do que realmente diz algo.

Por mais que Cox tenha enfrentado várias limitações que tanto prejudicaram seu documentário, vale o esforço em cutucar uma história perdida que, apesar do pouco que tinha em mãos, desvenda os tentáculos da indústria em pasteurizar e domar todo e qualquer estilo que fuja do habitual para a época, mesmo que para tanto seja necessário tomar medidas drásticas como aposentar uma cantora ainda em sua juventude.

Filme visto em novembro de 2018, no Festival Mimo de Cinema.
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