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    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
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    Estrangeiro, forasteiro, alheio

    por Bruno Carmelo

    Pode ser um pouco difícil entrar na proposta de Synonyms. O espectador é lançado na ação sem conhecer os personagens nem seus propósitos. Quando Yoav (Tom Mercier) corre nu por um apartamento gigantesco de Paris, podemos nos perguntar como ele chegou lá, e com que intenção. Quando encontra um vizinho caridoso que lhe dá roupas, dinheiro, celular e afeto, podemos nos questionar se a casualidade não seria conveniente demais – ao personagem e à narrativa. Quando Yoav manifesta repulsa pela nacionalidade israelense e o desejo de se tornar francês, é pertinente interrogar a origem deste sentimento.


    Aos poucos, as peças se encaixam, ainda que não no sentido tradicional do termo. O projeto nunca se torna convencional, do tipo que revela todas as lacunas até preencher uma cronologia exata. O filme deixará zonas cinzentas, além de alguns momentos que parecem cortados pela edição cedo demais, ou esticados para além de seu propósito na trama. O espectador é constantemente provocado através de uma estética turbulenta, que combina imagens tremidas com outras fixas, cenas burlescas com outras violentas, diálogos informais com outros de teor literário. O diretor Nadav Lapid transmite a confusão de seu protagonista ao espectador por um meio puramente imagético – algo muito mais eficaz do que simplesmente informá-lo dessa situação.


     


    A narrativa de Synonyms avança através de uma série de esquetes sutilmente conectadas no tempo e no espaço. Se fosse preciso definir uma sinopse, diríamos que o garoto, um antigo soldado, foge à experiência da guerra e à dominação financeira dos pais para encontrar a liberdade na França. No entanto, percebe que o extremismo religioso e a violência política ocorrem igualmente no país europeu, sendo praticados tanto pelos locais quanto por seus conterrâneos em solo francês. Este resumo pode não ser falso, no entanto sugere uma ideia de linearidade que jamais se apresenta de tal modo em meio à cacofonia da obra.

     

    Lapid resgata uma liberdade de narrativa e estética que remete à Nouvelle Vague, com sua câmera digital tremendo alegremente pelas ruas, enquanto um trio de jovens – Yoav, Émile (Quentin Dolmaire) e Caroline (Louise Chevillotte) – discutem amor, futuro, música e experiência literária. Os jovens são ao mesmo tempo cultos e pedantes, livres em sua sexualidade porém presos à condição burguesa de seus grandes apartamentos de luxo e empregos na empresa dos pais. Ironicamente, Yoav ostenta um orgulho de ser francês que os colegas franceses sequer possuem. O roteiro trata de sublinhar, até o limite do ridículo, a noção de patriotismo, com destaque para a cena do hino nacional, quando o israelense percebe que o orgulho francês está igualmente baseado na quantidade de sangue derramado, de acordo com as letras da Marselhesa.


     


    Em seu ponto de vista crítico (ou talvez seja melhor dizer cínico), Synonyms faz um uso bastante criativo da linguagem cinematográfica. Existe uma dezena de momentos memoráveis, antinaturalistas e divertidos, a respeito da inadequação de Yoav e os fetiches projetados nas pátrias estrangeiras. O projeto transborda de vigor, com atuações perfeitamente calibradas do trio principal para um tipo de comédia que deriva do tom exagerado para uma situação comum, ou naturalista demais num contexto extraordinário. O filme é estranho, no melhor sentido do termo: ele encontra uma maneira incomum de transmitir uma sensação, contar uma história através de fragmentos, de tons, de diferenças de linguagem e de percepção musical.

     

    Filme visto no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019.

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