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    Supa Modo
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Supa Modo

    Mentir na vida, mentir na arte

    por Bruno Carmelo

    Nesta comédia dramática queniana, Jo (Stycie Waweru) é uma garotinha gravemente doente. Sua maior alegria é se imaginar dentro das produções de ação e de super-herói, que vão desde os filmes de artes marciais de Jet Li até as aventuras dos Vingadores. Embora estes heróis sejam homens adultos de países distantes, Jo se sente protegida pelos poderes deles e pelo fato de nunca morrerem, como ela mesma lembra. Presa à rotina de hospitais e remédios, a menina enxerga nas figuras fictícias do cinema e dos quadrinhos tanto anjos da guarda quanto uma possibilidade simbólica de driblar a morte. Por isso, as pessoas ao redor se unem para deixá-la acreditar que ela possui, de fato, poderes sobrenaturais. “Que mal há em fingir um pouco?”, questiona a mãe.

     

    O filme poderia parar por aí, na constatação da nossa necessidade de ficção, ou do uso da arte enquanto escapismo aos problemas cotidianos. Supa Modo se tornaria um primo africano de A Vida É Bela, aquele filme em que o faz de conta não apenas alivia os horrores da guerra, mas se substitui a eles. Felizmente, a produção do diretor Likarion Wainaina vai além. Primeiro porque, ao lado da brincadeira pueril, existe o cinema, posto numa categoria muito diferente – não por acaso, o personagem avesso aos planos de enganar Jo é justamente o dono de uma produtora cinematográfica caseira. Para ele, mentir na vida é irresponsável, mas mentir dentro da arte é permitido, porque o espectador sabe que está sendo enganado, criando portanto um pacto de suspensão da descrença.


     


    Deste modo, o roteiro surpreende ao levar sua premissa fabular às últimas consequências. O filme testa os limites da encenação dos moradores, quando o jogo se torna realmente perigoso, e questiona a ingenuidade da garotinha diante da proposta cênica. Ela estaria acreditando mesmo nas encenações? Quem está enganando quem, afinal? Diante das discordâncias, os moradores da cidadezinha se unem em torno da promessa de criarem um filme juntos para agradar Jo, partindo de uma ideia original dela. Wainaina consegue criar com uma beleza muito simples o sentido de coletividade da arte, assim como a noção de mise en scène: são os personagens que controlam suas ficções, que dispõem outros personagens em cena, que criam situações e as dirigem, sem terem noção de seu próprio trabalho. A homenagem à potência do cinema vai muito além da citação ao ilusionismo de Hollywood, ela se encontra no elogio da criatividade e da criação.

     

    Ainda que Supa Modo ostente uma aparência simples, existe evidente controle dos enquadramentos, dos silêncios e do ritmo pelo diretor. Partindo de um material de vocação melodramática, ele restringe o teor emocional para sugerir, fora de quadro, aquilo que se tornaria explícito demais uma vez posto em cena (uma situação médica e outra envolvendo um caminhão, por exemplo). Nesta família composta apenas por mulheres fortes e destemidas, o cineasta trabalha com três atrizes muito boas, que conseguem fugir ao maniqueísmo das ações (com destaque para a ótima irmã mais velha interpretada por Nyawara Ndambia). Existe um despojamento nos corpos e nos gestos que se aproxima do vídeo caseiro, mas também de um realismo muito interessante para uma história sobre ficção e metalinguagem.


     


    Para completar a bela sessão, a narrativa encontra tempo, em seus enxutos 75 minutos, para desenvolver ainda mais a metáfora cinematográfica. Enquanto, no início, o real servia de material para criar uma ficção – vide o belo momento em que a comunidade “congela” no meio da rua, simulando o poder de Jo -, no final é a ficção que cria uma nova realidade. Uma vez que o filme-dentro-do-filme está pronto, a mãe utiliza este material para lidar com a tristeza da situação de sua filha. Ela passa de criadora e produtora a espectadora; de pessoa que controla o projeto à mulher tomada de surpresa pelo resultado. A arte ressignifica aquela situação, devolvendo à própria comunidade outra possibilidade de leitura, lúdica e metafórica, para ajudar a lidar com as dores da vida. O cinema não se torna um mero jogo de enganos consentidos, e sim uma nova forma de enxergar o mundo.

     

    Filme visto na 4ª Mostra de Cinemas Africanos de São Paulo, em julho de 2019.

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