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    A Camareira
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    A Camareira

    As vítimas da elite perversa

    por Sarah Lyra
    De muitas formas, A Camareira trata mais de questões não vistas em tela do que aquelas acompanhadas no decorrer da trama. Faz um comentário sobre a elite mexicana a partir do cotidiano de uma mulher da classe trabalhadora; aborda a diferença na maternidade entre as classes sem que jamais vejamos o filho da protagonista; e fala do mundo exterior sem sair das paredes de um hotel luxuoso da Cidade do México. Em essência, o longa apresenta uma comunicação pautada na ausência, em uma brecha ou lacuna, no vazio. E é assim que Eve (Gabriela Cartol) preenche os seus dias, vivendo uma rotina que em nenhum momento faz sentido, na esperança de que esse nada se transforme em algo.

    É interessante notar a contradição daqueles que, muitas vezes, acreditam ser os detentores da moral e bons costumes, mas que ao mesmo tempo são incapazes de manter um mínimo de decência higiênica na privacidade de um quarto de hotel. Toda vez que Eve entra em um cômodo para limpá-lo, é quase como se estivesse indiretamente recebendo um recado que a lembra de seu lugar na sociedade, tamanhas são as dificuldades de suas atribuições, seja no inexplicável acúmulo de produtos de banho por parte de um hóspede, na mancha indecifrável em uma banheira branca, ou no quarto virado do avesso enquanto um homem de ressaca se esconde sob as cobertas.

    Esse contraste fica ainda mais evidente quando a fotografia contrapõe a imagem da protagonista em primeiro plano ao fundo de enormes janelas de vidro com vista para uma cidade da qual ela não pode usufruir. Quando Eve senta em uma das camas, na tentativa de sentir minimamente o conforto que ela mesma propicia aos hóspedes, o alerta vem como uma punição por desafiar sua posição social, já que neste momento ela percebe o sangue de sua menstruação manchando os lençóis brancos, levando-a ao desespero. Nesse ponto, a direção de arte também desempenha um importante papel ao frequentemente incluir a personagem cercada de pilhas de toalhas, roupas de cama e produtos de limpeza, como se ela estivesse encurralada e sufocada pelos elementos que compõem o seu mundo.



    Igualmente sintomático é o fato de que todas as refeições e banhos, assim como a comunicação por telefone entre Eve e seu filho, são feitas dentro do hotel. Em uma forma de ironia a qual não apenas ela, mas muitas mulheres na mesma posição estão sujeitas, a protagonista também se vê diante da possibilidade de cuidar das crianças de outras mães. "Que sorte a sua ter alguém para cuidar do seu filho", diz uma das hóspedes ricas do hotel, em certo ponto, com uma ingenuidade que beira o cinismo. Por conta de toda a complexa relação da protagonista com seu emprego, hóspedes, chefes e colegas de trabalho, muito bem balanceada pelo filme, não é uma surpresa que, quando questionada sobre o que gosta de fazer no tempo livre, Eve não saiba o que responder.

    É justamente por conta deste cenário de opressão silenciosa que o vestido vermelho ganha tanta importância na trama, representando a única coisa que Eve ousa em ter, além de evidenciar o caráter mesclado a um alto nível de submissão que a impede de tomar o vestido para si, por mais merecedora que seja. Com uma atuação madura de Cartol, A Camareira se encerra da mesma maneira injusta que se inicia. Apesar do leve aceno a uma possível ruptura na cena final, sabemos que, diante de todo o contexto apresentado, a protagonista permanece tão encurralada quanto sempre esteve. A única mudança vem no sentido de escancarar as camadas e contradições de um sistema perverso, que pauta seu discurso em uma meritocracia que jamais virá para aqueles mais dispostos a trabalhar para ascender. Eve é uma peça de qualquer classe trabalhadora, e a elite mexicana é toda e qualquer elite, que se costura uma à outra para manter ativo um mega esquema global enquanto nega os próprios privilégios.
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