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    Longe da Árvore
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Longe da Árvore

    Normalidade não é a meta final

    por Sarah Lyra
    O documentário Longe da Árvore, como o nome já sugere, acompanha personagens que têm em comum o fato de serem parte de famílias que, de alguma forma, precisaram superar adversidades na relação parental. Para isso, as diretoras Rachel Dretzin e Jamila Ephron selecionam uma amostragem que inclui, principalmente: um homem gay em busca de aceitação dos pais; um homem com síndrome de Down; um casal com nanismo; um casal com um filho autista; e um casal cujo filho é responsável por um terrível assassinato. A obra é guiada por uma desconstrução da ideia de que filhos tendem a ser um resultado direto das expectativas e experiências dos pais, evidenciada pelo fato de que nenhuma das famílias analisadas sabe explicar como se depararam com a situação em que vivem hoje, ou o que poderia ter sido feito para evitá-la.

    É devastador acompanhar o relato da mãe que explica a culpa com que lida diariamente pelo fato do filho ter se tornado um assassino. Fotos antigas e vídeos caseiros — uma linguagem que permeia todo o filme — ilustram uma família feliz e saudável, com crianças gargalhando, comemorando aniversários, interagindo normalmente com a comunidade à sua volta e seguindo à risca os protocolos sociais esperados. Um dia, agora aos 16 anos, uma dessas crianças aparentemente felizes, Trevor, vai até uma floresta, corta a garganta de um menino de 8 anos, e depois confessa o crime. A polícia faz testes para esquizofrenia, sociopatia e psicopatia, mas nada é compatível com os dados coletados pelos profissionais nas conversas com o adolescente. Ele é perfeitamente "normal", apenas "quebrado", como descreve um dos especialistas. Os pais, então, passam o resto da vida revisitando detalhes de todos os momentos em família na tentativa de determinar o instante em que as coisas tomaram um rumo diferente. "Será que eu deixei ele chorando por muito tempo quando era bebê? Eu deveria ter amamentado por mais tempo?" se questiona a mãe, acreditando que o desvio de seu filho pode ter sido causado por uma conduta inadequada pela qual ela mesma seria responsável.



    Essa é apenas uma das histórias apresentadas em Longe da Árvore, mas todas, à sua própria maneira e dentro das devidas proporções, provocaram uma ruptura familiar, e iniciaram, em seguida, um processo de reparação. Os relatos são conduzidos com delicadeza e empatia por parte de Dretzin e Ephron, e chama a atenção que a maioria dos personagens parece perfeitamente à vontade com uma câmera presente em seus espaços mais íntimos, como uma sala de parto, em conversas particulares ou na sessão médica em que um casal se comunica com o filho autista pela primeira vez em anos — certamente um mérito da dupla. Um erro muito comum em documentários desse tipo é que os entrevistados por vezes acabam "posando" demais diante das lentes, como se forçassem interações profundas para alimentar a ambição dos cineastas por trás delas. Não é o caso aqui, as realizadoras são integradas de forma orgânica às famílias, a ponto de realmente parecerem um membro delas.

    Apesar da naturalidade e leveza com que se deslocam entre as famílias, Dretzin e Ephron abusam do formato convencional e demonstram pouca ambição cinematográfica. Em certas cenas, é possível notar que as fotos de família e vídeos caseiros desempenham uma função na trama, seja a de contextualizar acerca de acontecimentos anteriores, a de trazer credibilidade aos relatos, ou a de apresentar um contraste entre passado e futuro. Em outras, o uso se torna arbitrário e as cineastas fazem muito esforço para comover o espectador — o que é um problema ainda maior se levarmos em consideração que a maioria das histórias têm força por si só e não precisa desse tipo de recurso coercitivo.



    A única trama que se revela menos impactante diante das outras é a de Jason, um homem com síndrome de Down apaixonado por Elsa, personagem do filme Frozen. Embora a história apresente potencial narrativo, o longa se limita a inserir diálogos edificantes em que os personagens falam de amor, superação e dor. Talvez seja este o único núcleo em que as diretoras demonstram dificuldade em se inserir completamente. Dessa forma, subtramas que poderiam ter ganhado mais camadas e aprofundado a experiência narrativa — afinal, quando Jason deixou de diferenciar realidade e ficção? Em que implica sua obsessão por Elsa na vida cotidiana? Por que ele só usa roupas azuis? — se tornam meros detalhes. As diretoras também flertam com a possibilidade de explorar uma ambiguidade em Jason ao problematizar a perda da admiração alheia — durante a infância, ele era atipicamente inteligente, mesmo com a condição genética —, mas a questão é rapidamente abandonada pelo roteiro.

    Andrew Solomon, por sua vez, autor do best-seller homônimo no qual o documentário é baseado, faz o trabalho de costurar as histórias com sua eloquência. Sendo filho de pai e mãe conservadores, ele explica como precisou escrever um livro para perdoar os pais, que hesitaram em aceitar que ele é gay. A assertividade de Andrew, assim como sua habilidade de identificar e descrever com precisão suas dores, torna sua forte presença um dos grandes ganhos do documentário. Cabe a ele também dar voz ao filme e lançar perguntas importantes para as quais ainda não há respostas. "Como algo que era considerado doença se tornou uma identidade? E, sendo assim, onde mais o mundo poderá mudar? Como decidimos o que curar e o que celebrar?" questiona ele, sobre os avanços no entendimento da sexualidade. Apesar das limitações estéticas e narrativas, Longe da Árvore se mostra admirável pela disponibilidade em questionar a normatividade e a normalidade e em oferecer um importante contraponto às nossas (muitas vezes problemáticas) idealizações enquanto sociedade.
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