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    O Mistério de Henri Pick
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    O Mistério de Henri Pick

    Humor quase ambicioso

    por Sarah Lyra
    Em O Mistério de Henri Pick, Daphné Despero (Alice Isaaz) é uma ambiciosa editora em busca de novos romances para publicar. Um dia, enquanto visita seu pai em Crozon, na Bretanha, Daphné decide conhecer uma livraria de manuscritos rejeitados. Lá, ela se encanta com uma história nunca antes publicada, escrita por um pizzaiolo bretão chamado Henri Pick. Admirada com o talento encontrado, ela começa a pesquisar sobre o autor e acaba descobrindo que ele faleceu há dois anos. Com o apoio da família de Pick, o manuscrito é publicado e imediatamente vira uma febre em toda a França, entrando para a lista de mais vendidos e gerando fascínio sobre a história do autor. Como parte da turnê de divulgação do livro, Daphné e a família de Pick são convidadas para ir ao programa de Jean-Michel Rouche (Fabrice Luchini), um crítico literário pedante e desagradável, que não hesita em questionar todos os pontos da história de Henri Pick que soam suspeitos. Convencido de que se trata de uma farsa, Jean-Michel inicia uma trajetória em busca da verdade sobre o mais novo best-seller francês.


    Não há como negar o carisma de O Mistério de Henri Pick. O filme é eficiente naquilo que se propõe: é leve, divertido, engraçado e sem grandes ambições. Ainda assim, é interessante notar que, à medida que a trama avança, o roteiro passa a exibir mais camadas do que aparentava inicialmente.

    Isso fica evidente no momento em que Jean-Michel chega até a Bretanha para conferir de perto a vida de Henri Pick, e percebe que os comerciantes locais se aproveitaram da fama do recém-descoberto autor para gerar algum lucro para seus empreendimentos. Em poucas semanas, o que era uma cidade pacata do interior se transforma em uma mega atração turística, repleta de opções de lugares frequentados por Henri Pick. É hilário ver como a antiga pizzaria onde Pick trabalhava passa a oferecer tours guiados ao seu escritório, e até mesmo o cemitério local onde o corpo dele está enterrado passa a cobrar pela visita ao túmulo. Em outro momento, durante um diálogo entre a editora-chefe responsável pela publicação do livro e Jean-Michel, ela se gaba da fortuna que acabara de fazer com a venda dos direitos autorais para filmes, séries e demais produtos audiovisuais sobre a vida de Pick. Fica claro, portanto, que o súbito interesse da população na vida do pizzaiolo serve de paralelo ao momento que vivemos atualmente, em que a imagem de um artista e os desdobramentos de sua vida pessoal são mais valorizado do que sua obra em si.

    Assim, o que era para ser um roteiro pouco ambicioso, rapidamente se torna uma crítica ao mercado literário e à toda uma geração obcecada por fama. A partir desse ponto, o filme vai além e a crítica ao marketing excessivo da cultura atual se torna uma constante na trama. É uma pena, porém, notar que isso não é feito de forma tão assertiva quanto se espera, como se o roteiro se mostrasse hesitante quanto à crítica que gostaria de fazer, impedindo-o, assim, de explorar todo o potencial presente. O filme desperdiça, por exemplo, uma ótima oportunidade de comentar sobre o nível de negação das pessoas, hoje em dia, ao acreditarem facilmente naquilo que é mais conveniente, sem o menor interesse em uma apuração mais aprofundada. Ninguém, além de Jean-Michel, parece minimamente preocupado em entender os furos na história do autor, como o porquê de Henri Pick ter exposto sua história secreta em uma biblioteca de manuscritos rejeitados.


    Apesar da hesitação do roteirista Rémi Bezançon (que também é diretor do longa), é divertido acompanhar a trajetória de Jean-Michel, principalmente quando a filha de Henri, Joséphine Pick (Camille Cottin), passa a acompanhá-lo na investigação, em uma interação que, como o próprio crítico literário aponta, lembra muito a de Sherlock Holmes e Dr. Watson. O problema, no entanto, é que nunca fica claro o real motivo da atração entre os dois personagens. A princípio, parece se tratar de uma relação paternal, mas, ao mesmo, alguns diálogos dão a entender que existe a possibilidade de um romance, como nas duas cenas em que Jean-Michel brinca sobre Joséphine ser louca por ele.

    Apesar das falhas, O Mistério de Henri Pick faz um bom trabalho ao manter o interesse do espectador na investigação, plantando pistas intrigantes e explorando soluções inteligentes por parte da dupla de investigadores. Por isso, é frustrante ver que o filme decide solucionar o mistério de forma tão pouco criativa, em uma daquelas famosas cenas em que um personagem gasta cinco minutos de projeção para responder a todos os questionamentos feitos ao longo da trama. A sensação ao final do terceiro ato é a de que o filme, de maneira geral, merecia mais do que seu roteiro se dispôs a oferecer.

    Filme visto no Festival Varilux de Cinema Francês, em junho de 2019.
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