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    Judy
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Judy

    Cria de Hollywood

    por Francisco Russo
    "O que você vê além desta parede?" A frase, dita ainda sem qualquer imagem, é um convite ao espectador para ir além da persona pública de Judy Garland, ícone absoluto do cinema desde o sucesso, ainda adolescente, no clássico O Mágico de Oz. Por mais que até traga breves cenas do período, não é o objetivo desta cinebiografia abordar toda a vida da atriz. O foco está em sua decadência, quando teve que partir rumo a Londres para uma série de shows, por não conseguir meios de se sustentar nos Estados Unidos. Mesmo que isto lhe custe a distância dos dois filhos menores, que não puderam acompanhá-la.


    Para contar esta história, o diretor Rupert Goold fez uma escolha certeira e surpreendente: Renée Zellweger. Nem tanto por sua qualidade vocal, já demonstrada em Chicago - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, inclusive -, mas devido à transformação física sofrida pela atriz nos últimos anos, que lhe rendeu anos de afastamento da vida pública. É impossível iniciar Judy sem ver em Renée a personificação da decadência, até com uma certa desconfiança: o impacto de sua caracterização é tamanho que é até mesmo difícil se lembrar que na tela está uma personagem, e não a própria atriz. Era exatamente isto que Goold desejava.

    Entretanto, reduzir a atuação de Renée ao impacto de sua presença seria extremamente injusto. Se a atriz continua insistindo em seus maneirismos típicos, especialmente o conhecido biquinho, ela também consegue transmitir um vazio no olhar que impressiona. Entretanto, é no palco que atriz e personagem se transformam: com sua potência vocal, Renée traz para si a dramaticidade do momento de vida de Judy Garland e, por que não?, seu também. Judy é sua grande volta por cima, a chance de provar ao mundo que ainda é uma boa atriz. Consegue.


    Como pano de fundo, Judy aborda os vários problemas pessoais de sua personagem-título sem, no entanto, esmiuçá-los - não é este seu objetivo, no fim das contas. Os breves flashbacks da época de O Mágico de Oz têm por função muito mais ressaltar a pressão massacrante que sofrera desde a adolescência, sendo obrigada a tomar pílulas e mais pílulas para ser uma artista perfeita, tanto em competência quanto para a mídia. Judy Garland foi uma cria de Hollywood, para o bem e para o mal, e isto lhe cobrou um preço alto, no âmbito pessoal.

    No fim das contas, Judy é a reverência a uma grande artista, sem maquiar seus problemas, o que fica escancarado em seu desfecho comovente. Ao mesmo tempo, trata-se de uma típica história de Hollywood, que cria candidatos a ídolos em profusão de forma a satisfazer a indústria, sem no entanto dar a devida importância à pessoa por trás da persona pública. Por mais que excessos e abusos do tipo não sejam mais rotina, eles ainda acontecem só que em outra instância - estão aí as denúncias contra Harvey Weinstein, para nos lembrar do lado sujo de Hollywood.

    Filme visto no Festival de Toronto, em setembro de 2019.
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