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    Anna - O Perigo Tem Nome
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Anna - O Perigo Tem Nome

    Liberdade a qualquer custo

    por Barbara Demerov
    Mesmo com diversas personagens femininas estrelando seu currículo cinematográfico, Luc Besson ainda parece estar bem distante de encerrar seu processo de criações que transcendem a objetificação sexual dentro de um gênero majoritariamente masculino. Desde Nikita, o diretor francês encontrou na ação uma forma de dar espaço às mulheres de forma tão natural quanto potente, desmistificando que a figura feminina apenas deve desempenhar um papel específico nestes casos: o da femme fatale, com o fascínio pelo corpo acima do desempenho da mente. Com isso, seu público-alvo conta com um misto de homens e mulheres, pois em seus filmes existe equilíbrio na dosagem de violência com a clara admiração pelo feminino que Besson possui. E, em Anna - O Perigo Tem Nome, tal dosagem é o que torna a história bem articulada.

    Com um certo "retorno às próprias raízes", há bons toques de Nikita neste filme. Apesar de não ser tão complexa quanto a personagem interpretada por Anne Parillaud, a protagonista Anna (Sasha Luss) ganha camadas interessantes graças à montagem, que se inicia com breves passagens que vão e vem no tempo, mas acaba por ser o elemento principal da narrativa. É através da deslocação temporal que o espectador conhece a protagonista, não com cenas lineares que apresentam seu passado logo de início para completo entendimento. Assim, o foco em sua rotina como agente da KGB e todos os percalços pelos quais passa misturam-se com seu disfarce de modelo internacional. As intenções e aflições de Anna são delineadas sem apelo sexual (havendo apenas uma cena que exprime o abuso pelo qual passou numa época antes da espionagem), dando lugar a uma forte percepção de como sua mente parece estar sempre focada em seu objetivo principal - no caso, sua liberdade.

    Besson prioriza o lado racional de sua protagonista. Ao mesmo tempo que a KGB (e, posteriormente, outras organizações) tratem Anna como instrumento que os levará a grandes trunfos profissionais, o diretor entrega no roteiro de sua autoria a forte necessidade dela sentir o gosto da independência pela primeira vez. Permeando as mortes precoces dos pais, a solidão que veio após e seus diversos trabalhos - da Marinha à espionagem -, o filme delineia a crescente sensação claustrofóbica da protagonista, mesmo que não a vejamos presa fisicamente. Sua prisão é psicológica e, sabendo que ela existe em conjunto com seu modo de vida, Anna estrutura um propósito bem delineado através de sua inteligência e sagacidade - especialmente para aceitar novos atalhos que possam lhe ajudar a conquistar autonomia.



    Em Anna - O Perigo Tem Nome, a protagonista não só vê na figura masculina uma porta para o prazer como também para o êxito, e sempre que as incertezas de personagens como Alex (Luke Evans) e Lenny (Cillian Murphy) aparecem, são refletidas na segurança de Anna. Mas nem toda a força e foco fazem com que ela seja a mulher mais inabalável do mundo. Como o próprio filme já insere a Boneca Matriosca (ou Boneca Russa), tal exemplo é perfeito para explicar a profundidade emocional de Anna, que possui mais sobreposições do que parece num primeiro momento. Nunca deixando sua feminilidade de lado, a atriz Sasha Luss mescla muito bem as características que fazem sua personagem tão forte com momentos de dúvida e abatimento, mesmo não demonstrando fraqueza. O auxílio de personagens inesperados, como a chefe da KGB Olga (Helen Mirren, ótima), sustentam a engenhosidade que o roteiro possui por ser, do modo mais puro e simples, um filme de espionagem.

    Já citada, a montagem completamente rocambolesca impressiona quando começa a esmiuçar a verdadeira Anna por trás da modelo, espiã e órfã no primeiro ato, mas nos demais ela passa a "brincar" de modo exagerado com a capacidade de inserir um plot-twist seguido de outro. É claro que, num filme deste gênero, a inserção de tal artifício para que o espectador se surpreenda se faz necessário; e em Anna - O Perigo Tem Nome isso acontece, mas não sem antes colocar a própria montagem como uma forma de sua história enfraquecer um tanto. Por outro lado, as sequências de ação não deixam a desejar e são bem dirigidas e coreografadas - sobretudo na primeira missão de Anna na KGB dentro de um restaurante a luz do dia. Para os fãs de ação, filmes como AtômicaJohn Wick (que são bem conhecidos pelas cenas impecáveis de lutas corpo a corpo) certamente passarão por suas mentes.

    Sem se restringir apenas ao mundo obscuro dos espiões, Anna - O Perigo Tem Nome também retrata o mundo da moda com boas alfinetadas. O "trabalho de mentirinha" da protagonista faz com que ela abra os olhos para a importância de se ter a dominância do próprio corpo e não aceitar ordens que não lhe parecem apropriadas. Indo contra uma direção sexista, Anna, desde os incontáveis tiros que precisa dar por trabalho até o constrangimento feito a um fotógrafo insensível, exala tanto firmeza quanto feminilidade em seu cerne.
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