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    O que Arde
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    O que Arde

    O suposto pirômano

    por Bruno Carmelo

    Um documento policial passa de mão em mão dentro de uma delegacia. “É ele, o pirômano?”, perguntam. “Sim, é ele mesmo”, responde uma voz em off, enquanto se folheia as centenas de páginas do processo. Pelo tamanho do arquivo, pela seriedade das falas e pelo fato de todos conhecerem o caso, deduzimos a gravidade da situação. Na cena seguinte, Amador (Amador Arias) dirige seu carro pelas estradas da Galícia. Através do simples corte de montagem, sugere-se que este homem é o famoso incendiário, o criminoso tão temido da cena anterior. No entanto, em nenhum momento do filme o espectador verá Amador segurar um fósforo sequer.

     

    Oliver Laxe constrói O que Arde sob o formato da provocação conceitual. O único indício da equivalência entre Amador e o criminoso se encontra na linguagem cinematográfica, no caso, a montagem que os aproxima, sem apresentar alternativas de possíveis culpados. Deste modo, o espectador é convidado a julgar o protagonista desde a primeira vez que o vê. Seu rosto chega pré-significado aos olhos do espectador, levando-nos a interpretar cada mínima expressão como um gesto de raiva, de prazer, de tristeza em relação ao crime cometido. Se a cena do dossiê policial viesse mais tarde na trama, Amador ganharia o benefício da dúvida, mas Laxe prefere que o julguemos moralmente, assim como os moradores o fazem. Rumo ao final, um grande incêndio desperta óbvia raiva dos moradores contra Amador. Mas quem dirá que o réu é realmente culpado?


     


    Enquanto isso, a intrusão de uma realidade não simulada contribui a culpabilizar o protagonista. Diversas cenas são concebidas de modo a impossibilitar os truques: presenciamos um incêndio real, de grandes proporções, vemos as árvores de uma floresta sendo derrubadas por um trator imenso, uma vaca lutando para sair do brejo, duas cabras presas dentro de uma casa. Laxe encontra na natureza o registro próximo do documental, uma prova de que aquela história é verdadeira, os cenários são reais, as ações não poderiam ser simuladas. Se tudo aquilo aconteceu de fato diante das câmeras (não sendo criado com efeitos especiais na pós-produção), os crimes de Amador também devem ser reais, certo? Como suspeitar das atividades de Benedicta (Benedicta Sánchez), fazendeira de 84 anos que conduz suas vacas para o pasto com desenvoltura de quem executa aquela atividade há décadas? Pelo reforço do aspecto verossímil, o filme ganha nossa confiança.

     

    Este jogo de acusações é permeado por uma atmosfera misteriosa, próxima da alucinação. As cenas iniciais constituem um puro deleite estético, quando as árvores de uma floresta são iluminadas por alguma fonte desconhecida, e então caem, uma a uma, antes que descubramos a causa da devastação. O cineasta filma o corte dos pinheiros como uma sinfonia macabra, em pleno domínio dos enquadramentos e da montagem, até deslizar sua câmera majestosamente pelos sulcos de uma árvore. Este poderia ser o início de um filme de terror, o que de certo modo condiz com os não-ditos e as sugestões de O que Arde.


     


    A chegada do trem, a cena da vaca ao som de “Suzanne”, de Leonard Cohen, e as interações entre a mãe idosa e o filho são filmadas com uma habilidade poética impressionante. Laxe enquadra a natureza longe de qualquer banalidade, propondo um uso expressivo da trilha sonora e das imagens do fogo. O despertar misterioso dos incêndios condiz com a nossa tendência a acreditar na prova pela imagem, devido à credibilidade do realismo filmado (o “ça a été” de Barthes, ou seja, a ideia de que se algo foi filmado, aquilo realmente existiu). O filme provoca nossas certezas enquanto estimula os sentidos. Ao mesmo tempo, une-se ao recente Em Chamas para comprovar o potencial estético e filosófico da piromania enquanto representação de nossos desejos ocultos.

     

    Filme visto no 72º Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio de 2019.

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